12/06 - 20:19 Profissão: juiz de futebol Para quem ama futebol, ser árbitro pode parecer a profissão dos sonhos: viver viajando de jogo em jogo e assistir tudo do melhor lugar possível, de dentro do campo. Para Carlos Eugênio Simon, árbitro da FIFA e presidente do Sindicato dos Árbitros de Futebol do Estado do Rio Grande do Sul, o melhor da profissão é mesmo isso, viver no meio do jogo que se ama. Mônica Magalhães
Mas vida de árbitro está longe de ser só diversão. “Ser árbitro é apaixonante, mas não é visto como uma profissão de verdade no Brasil”, diz Simon, que defende um projeto que está em tramitação no Congresso para que a profissão seja regulamentada. Sem a profissionalização, explica ele, os juízes não conseguem viver apenas dessa atividade, porque só são pagos quando apitam jogos: “um árbitro machucado tem que fazer tratamento e fisioterapia por sua própria conta e enquanto isso fica parado”. Ele explica que hoje a profissão só é plenamente regulamentada na Inglaterra, mas que em muitos países, como a Argentina e vários Estados europeus as Confederações oferecem uma ajuda de custo aos juízes de futebol. Simon começou a apitar jogos quase por acaso. Quando ainda era estudante de jornalismo, foi convidado para apitar a final de um campeonato estudantil depois que o juiz se recusou a continuar por causa de uma briga. Um professor de educação física, que na época era árbitro aspirante à FIFA, achou que ele levava jeito e recomendou que ele fizesse o curso da federação local. Depois do curso, ele começou a apitar jogos municipais amadores em Porto Alegre e a subir na carreira. O caminho até a CBF e a FIFA é longo. Simon explica que, depois de fazer o curso de um ano, teórico e prático, da confederação, o árbitro entra no quadro C. Conforme vai ganhando experiência e sendo bem-avaliado, sobe para os quadros B e A. As confederações indicam os árbitros para a CBF, que indica para a FIFA. No Brasil, há dez vagas para árbitros da FIFA, preenchida conforme os ocupantes param de apitar. Simon levou 13 anos entre o curso e a FIFA, mas diz que hoje esse caminho é mais rápido, pois o tempo mínimo que um árbitro passa em cada quadro tem menos importância atualmente. Se um jovem mostrar competência ele pode ser “promovido” rapidamente. A idade em que um árbitro se “aposenta” (Simon não usa esta palavra, uma vez que a profissão não existe oficialmente) também baixou de 50 para 45 anos, acelerando as substituições. Simon conta que no começo da carreira é impossível viver da arbitragem. Um juiz de campeonato amador ganha por volta de R$ 300 por partida, um de segunda divisão ganha aproximadamente R$ 500, embora as quantias variem entre os Estados. No início ele teve outros empregos, como jornalista, e apitava aos fins-de-semana. Conforme as exigências da carreira aumentaram e ele começou a ser requisitado para jogos em outras cidades ou países, um emprego em horário comercial se tornou inviável. Além de viajar muito para apitar jogos, um árbitro em tempo integral tem que manter o preparo físico com treinamentos todos os dias, afinal ele corre tanto quanto os jogadores em campo. “É exaustivo. Só nas vésperas de jogos o treino é mais leve, e em dias de jogo eu não treino, preciso estar descansado porque a partida é extremamente desgastante”, diz Simon. Quase dois anos antes da próxima Copa do Mundo, ele já está investindo em sua candidatura para essa possível terceira participação – ele trabalhou nas copas de 2002 e 2006. Isso acrescentou à sua rotina estudos extras e acessos diários ao site da FIFA, que coloca vídeos e questões para os candidatos responderem, sempre em inglês. “Os treinos e estudos me tomam entre 5 e 8 horas por dia”, diz ele, que não pode deixá-los de lado nem quando viaja. Como se vê, para ser juiz é preciso muito mais do que gostar e entender de futebol, embora esse seja o primeiro requisito. “Tem que ter muita personalidade, honestidade, caráter, integridade”, diz ele. Isso porque o fã de futebol que vira juiz tem que abandonar de vez o time do coração: “eu torcia, mas nunca fui fanático. Quando virei árbitro abandonei preferências de clube, e hoje torço só para a seleção brasileira”, conta ele. “Esse trabalho tem que ser encarado com imparcialidade”. A consciência limpa é a maior arma do árbitro contra as pressões enormes que ele invariavelmente sofre em seu trabalho: “tem que entrar em campo tranquilo, não pode querer agradar todo mundo, tem que apitar de acordo com o que enxerga”. Uma postura íntegra em todos os momentos também preserva o juiz e a profissão em geral de tentativas e suspeitas de corrupção: “em 25 anos de profissão, nunca recebi nenhuma proposta ilícita, assim como a esmagadora maioria dos árbitros. Não dou espaço para isso. De vez em quando aparece um corrupto que mancha a imagem de todos”. Ter senso de proporções também ajuda: “O futebol é muito importante, mas eu gosto da frase que diz que ele é a mais importante das coisas menos importantes. Tem que ter em mente que o futebol não é uma guerra, não é matar ou morrer”, reflete. Simon dedicou sua vida ao futebol, mas nem por isso acha compreensíveis comportamentos violentos por parte de torcedores: “Torcedores fanáticos são doentes, não dá para manter nenhum tipo de diálogo com um cara que parte para a agressão”. Já os xingamentos dirigidos ao juiz, quase de praxe, ele encara tranquilamente: “Faz parte. Futebol é uma válvula de escape, quem me xinga na verdade queria dizer aquilo para o chefe, para o prefeito, para o presidente. No começo eu sentia mais a pressão da torcida, hoje encaro isso com naturalidade”. Se as coisas continuarem no caminho que estão seguindo, logo o juiz de futebol vai deixar de ser uma profissão odiada. “Hoje em dia essa coisa de xingamentos está diminuindo, há muito mais respeito, nosso trabalho é reconhecido”, diz Simon.
Como árbitro da FIFA, que é chamado para muitos jogos no Brasil e no exterior e ganha R$ 2800 por uma partida de campeonato brasileiro, ele hoje se dedica exclusivamente à arbitragem. Mas isso não quer dizer que ele só trabalhe em dia de jogo.
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