Mitos por trás da hipnose
14/07 - 09:55
Aline Vieira
Este artigo segue as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
Nos filmes e desenhos animados, a técnica de indução hipnótica é, segundo especialistas, utópica ao extremo. Na vida real, quem é hipnotizado não conta detalhes pessoais e embaraçosos "sem pensar", não fica desacordado e inconsciente e o mais importante: não corre o risco de não voltar do transe.
"A hipnose é muito mistificada mesmo nos meios que advogam para si alguma compreensão ou validação científica. Ainda hoje não faltam equívocos acerca do que ela é ou seria", reclama o psicólogo Adriano Facioli, logo na introdução de seu livro "Hipnose: Fato ou Fraude?". Para ele, os mitos por trás da técnica só tendem a aumentar, já que poucos são os meios de comunicação que conseguem esclarecer como funciona, com quem funciona e o que acontece com uma pessoa hipnotizada.
O termo "Hipnose" vem do grego "hipnos", que significa "sono", e do latim "oasis", que quer dizer "processo ou ação". Apesar disso, os significados não podem ser levados ao pé da letra: a hipnose não deve, de maneira alguma, ser considerada como uma espécie de sono. A técnica é um tipo de comportamento geralmente induzido que, ao contrário do que se pensa, não deixa o hipnotizado inconsciente.
“A função do profissional da hipnose é usar o estado de transe para atingir um resultado satisfatório para o paciente, mas quem é o maior responsável por essa obtenção de resultados é ele próprio. Nós apenas desenvolvemos uma espécie de confiança no hipnotizado, fazendo-o ter a certeza de que ele é capaz de resolver seus problemas, sejam quais forem”, explica o hipnólogo e psicólogo Anderson Limeira de Barros.
Uma segunda forma de hipnose também deve ser considerada: a hipnose natural. Essa, segundo especialistas, ocorre diariamente na vida de qualquer ser humano. Imagine-se, por exemplo, lendo um livro interessante no metrô lotado e desprendendo-se de tudo ao redor para focar apenas na atividade de leitura. O exercício requer tanta concentração que você entra numa espécie de "piloto automático", ou seja, o estado hipnótico natural. “O estado natural de hipnose é mais raro acontecer e nem todo mundo consegue alcançá-lo, já que ele requer uma concentração acima do normal”, diz Limeira.
Hipnose do bem
Nas ficções hollywoodianas, talvez, a polícia perseguiria o bandido, o encontraria e o submeteria a um processo hipnótico para descobrir detalhes de seus comparsas e de seus crimes. E, na vida real, de fato, os policiais podem usar a hipnose para ajudar vítimas e acusados a lembrar de pequenos detalhes que fazem a diferença numa investigação. A única polêmica, por sua vez, fica por conta da ética do hipnotizador. Segundo especialistas, a sede de desvendar crimes pode fazer com que o profissional acabe conduzindo o hipnotizado a conclusões que não são reais, modificando assim todo o caso.
Apesar de sua popularidade como uma maneira de desvendar mistérios – por causa dos filmes e desenhos-, a hipnose é muito mais utilizada para fins terapêuticos. Pessoas com problemas relacionados a fobias, depressão e com manias como roer unhas, chupar dedo e fumar, por exemplo, são submetidas a sessões de hipnose que ajudam a amenizar e transformar suas aflições sem situações mais toleráveis. “A maioria das pessoas que vão ao consultório geralmente têm esses pequenos TOCs e mal hábitos e procuram na hipnose ajuda para se livrar deles. Os casos mais extremos são mais raros”, revela o hipnólogo.
A hipnoterapia – como é chamada a hipnose para fins terapêuticos – e o tempo que pode durar dependem da pessoa e do problema a ser tratado. Um tratamento comum pode durar de 1 ou 2 sessões à 6 meses de trabalho.
Propensos à hipnose
O psicólogo Ernest Hilgard (1904-2001) ficou conhecido a partir da década de 50 por seus estudos sobre hipnose. Numa de suas pesquisas realizadas com estudantes universitários, o pesquisador chegou à conclusão de que só 25% deles haviam sido hipnotizados. A experiência contraria os dados da Organização Mundial da Saúde, que afirma que 90% das pessoas do planeta são susceptíveis à hipnose.
A propensão ao processo depende da idade e da personalidade de cada pessoa. Pessoas mais jovens, segundo estatísticas, são facilmente hipnotizadas por ainda serem menos questionadoras. Quem vive de muito sonho e da fantasia, de acordo com dados, também é um bom candidato a ser hipnotizado.
A hipnose pode...
1)...prejudicar minha saúde? Por ser parte do nosso dia-a-dia, a hipnose não é prejudicial à saúde. O que pode fazer mal é o uso indevido e exagerado dela por “profissionais” inexperientes.
2)...realizar milagres? A hipnose não é milagrosa. O processo é apenas uma maneira de se ter acesso a respostas, antes desconhecidas, do interior de cada pessoa. “O paciente tem que ter em mente que a hipnose não vai curá-lo de doenças graves ou resolver todos os problemas de sua vida. Isso tudo é Hollywood”, diz o hipnólogo Anderson Limeira, bem humorado.
3)...me levar para o passado? A hipnose não é regressão e sim uma das técnicas que pode (ou não) te levar até lá. Nem todo paciente consegue ter respostas de um passado distante.
4)...fazer com que eu conte meus segredos? Não. O hipnotizado só revela aquilo que quer falar. Mesmo estando em transe profundo, o hipnotizado não fica inconsciente e “nas mãos” do hipnotizador e conserva um sentido de proteção à própria integridade. “Esse é o maior mito que a cerca da hipnose. Muita gente, quando acaba a sessão, fica com ‘aquela’ cara de ‘falei demais’. Cabe a nós, profissionais, esclarecer tudo o que aconteceu durante o transe, se é que a pessoa não lembra”, comenta Limeira.
5)...me deixar em transe profundo para sempre? Não. Em casos de transes mais profundos e agradáveis, a pessoa tende a não responde quando o hipnotizador a chama. Apesar disso, não há risco de ficar para sempre em transe. Basta dar mais tempo ao hipnotizado para que ele volte.
Leia mais sobre: Hipnose
› Você tem mais informações? Envie para Minha Notícia, o site de jornalismo colaborativo do iG