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A energia encontrada no lixo

24/08 - 07:45
Isis Nóbile Diniz

Este artigo segue as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Cada brasileiro produz mais que um quilo de lixo por dia. Esse montante, poderia ser revertido em energia elétrica

A quantidade de lixo gerado no Brasil é proporcional ao seu tamanho continental. Todos os dias são produzidas cerca de 170.000 toneladas de resíduos sólidos urbanos, incluindo o doméstico. Mais de 70% não é reciclado e nem encaminhado para um destino sem poluir. Mas essa mercadoria jogada fora, que ninguém quer, pode trazer muitos benefícios. Inclusive energia elétrica para abastecer shoppings, indústrias e cidades.

Segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), apenas um pouco mais de 140.000 toneladas urbanas são coletadas, o demais possui destino incerto. Para piorar toda essa sujeira, apenas 39% dos municípios brasileiros dão tratamento adequados a esse resíduo como enviá-los para aterros controlados.

Uma solução seria gerar energia elétrica. As 170.000 toneladas de lixo correspondem, aproximadamente, a 220 milhões de barris de petróleo por ano ou 600.000 por dia. “Isso evitaria a contaminação do solo, das pessoas, a poluição do ar e, inclusive, geraria crédito de carbono”, afirma o especialista em administração de projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), Mauricio Maruca, da empresa Araúna Energia e Gestão Ambiental.

Os lixões atraem ratos, urubus, insetos e outros animais que são transmissores de doenças. Além disso, prejudicam o meio ambiente de diversas maneiras. Primeiro, ocupando um espaço que será interditado por mais 30 anos após sua desativação. O chorume, líquido de cor negra característico de matéria orgânica em decomposição, gerado pelo lixo contamina o solo e o lençol freático.

Por fim, a ação de microorganismos gera biogases que colaboram com o efeito estufa. São emitidos 50% de gás metano, 40% de gás carbônico, 9% de nitrogênio e 1% de outros produzidos por resíduos orgânicos como restos de comida. Porém o metano, que é inflamável, polui 20 vezes mais que o carbônico. E é, justamente, esse vilão que pode ser aproveitado na geração de energia.

Como funciona

Próximo a cidade de São Paulo, em Perus, está um dos maiores aterros e a maior utilização de biogás para a produção de energia elétrica no mundo. O Aterro Sanitário Bandeirantes que ficou em funcionamento por quase 30 anos. Ele parou de receber lixo em março de 2007, armazenando 30 milhões de toneladas. Atualmente, a empresa Biogás Energia Ambiental usa o potencial para geração de energia.

O volume pode abastecer uma cidade com até 400 mil habitantes por 10 anos. “Aos poucos a quantidade de gás emanada diminui. Aos poucos tiramos as máquinas que captam e, daqui cerca de 15 anos, finalizamos esse trabalho”, diz o gerente de produção da Biogás Energia Ambiental, Tiago Nascimento Silva. Depois, levarão mais 25 anos para transformá-lo em parque ou campo de futebol. Como o solo é feito de lixo, com itens que demorarão mais de 500 anos para se decompor como o plástico, não é permitido construções no local.

 

 

 

 


 





Veja com detalhes como funciona o processo no lixão

O Aterro Sanitário Bandeirantes possui 80 metros de altura e 160 camadas de lixo. Em cima dele, foi colocada terra argilosa, para não deixar a água da chuva penetrar, e grama. O solo recebeu uma manta impermeável para segurar o chorume, a cada cinco metros de lixo existe uma camada de terra. Neste caso, o chorume é enviado para tratamento feito pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Em cada parte com lixo, são colocados canos para o gás sair e, desse modo, estabilizar a montanha de sujeira.

A Biogás usou os canos já instalados no aterro para levar o gás até as 24 máquinas. Elas funcionam como o motor do carro. A explosão do metano movimenta os pistões e estes fazem o motor funcionar. A energia que o motor produz vai para uma rede da AES Eletropaulo. “Os motores funcionam por 24 horas porque o gás não pára de ser produzido”, afirma Nascimento Silva.

Alternativas para o metano

Existe outra maneira de gerar energia. “Por meio da queima direta do lixo como combustível”, conta Maruca. “Mas esse é um processo poluidor, altamente dispendioso e, por isso, combatido por organismos ambientais e leis brasileiras”, explica. Uma outra alternativa para o metano, mas que não gera energia, é queimá-lo. O resíduo será o gás carbônico – ele também é eliminado quando o metano é usado na geração de energia.

Segundo a empresa Araúna, desse modo consegue-se reduzir em até 98% a emissão de metano. Essa operação é controlada por computadores que medem a quantidade queimada correspondente às toneladas de gás carbônico jogadas na atmosfera. Esses índices são convertidos em créditos de carbono, certificados para compensar o excesso ou o não cumprimento das metas de redução de emissão dos gases de efeito estufa, vendidos às empresas.

“Mas nem todo lixo deve ser queimado ou usado para gerar energia”, afirma o presidente do Instituto Brasil Ambiente e consultor da Organização das Nações Unidas (ONU), Sabetai Calderoni. De acordo com Calderoni, o ideal seria reciclar tudo inclusive o orgânico. Apenas a sobra deveria ser usada. “A reciclagem poupa o dobro da energia produzida pela mesma quantidade de lixo. Além disso, dois terços do gasto que a prefeitura de São Paulo possui com os resíduos domiciliares está no transporte”, diz. Conforme acaba a capacidade de um aterro, os resíduos são levados para mais longe. “Em apenas um ano poderíamos mudar a situação do lixo no Brasil”, finaliza.

Aterro x Lixão

Um aterro sanitário é uma obra de engenharia. Ao contrário, os lixões não atendem a nenhuma norma de controle. Apenas recebem resíduos jogados de qualquer maneira. Mesmo assim, desde que seja transformado em aterro, todo o lixão pode gerar energia.

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