
É comum o discurso de que o “dente de siso vai desaparecer porque ele não serve para nada!”. Essa idéia é uma clara reanimação da lei do uso e desuso do francês Jean Baptiste Lamarck.
A lei foi proposta em 1809, no célebre “Philosophie zoologique”. Segundo a proposta, os seres vivos mudam seus corpos diante das necessidades impostas pelo meio ambiente, de tal forma que o dente de siso deve desaparecer uma vez que não é útil. Todavia, as idéias de Lamarck foram superadas há muito tempo (será mesmo?).
A idéia evolutiva que mudou a concepção sobre o assunto foi de dois grandes biólogos ingleses: Charles Darwin e Alfred Wallace. Segundo eles, as características são ou não selecionadas de acordo com seu valor adaptativo. Assim, o dente de siso só desapareceria se diminuísse a capacidade de sobrevivência ou reprodutiva de seu portador. E não é que isso pode ser verdade?
Os sisos podem incomodar, especialmente nos casos em que não saem totalmente da gengiva. É que parcialmente expostos criam um ambiente propício para a formação de um bolsão de sujeira e de bactérias, nocivo para todos os dentes e para – pasmem – o coração!
Pessoas com infecção do siso têm maiores chances de manifestarem problemas cardíacos e – a princípio – menores chances de sobrevivência em função disso. Aqueles que não têm siso, ou um deles, ou dois deles, ou três deles, seriam potencialmente mais “aptos” a viver. Ah! É verdade então que o siso tende a desaparecer? Talvez não.
O número de dentes de siso tem a ver com os genes do indivíduo. Sendo assim, portar ou não os terceiros molares é uma condição genética e essa informação está incrustada em algum (ou alguns) dos cromossomos humanos. Se as pessoas com o gene para “ter-siso” morressem mais cedo, era de se esperar que – com o tempo – o gene “não-ter-siso” ficasse consideravelmente mais abundante, terminando por eliminar o outro. Problema resolvido: o siso vai sumir!
Penso que não. A morte devido a causas cardíacas é muito mais freqüente em indivíduos com mais de 40 anos. Acontece que nessa idade, a maior parte deles já transmitiu seus genes para seus filhos. Portanto, um gene que abrevia a vida mas não o faz antes da idade em que normalmente o ser humano se reproduz, não tenderá a desaparecer. Simplesmente porque é propagado antes de se manifestar. Acho que os dentistas terão ainda muito trabalho por um bom tempo...
Marcello Vieira Lasneaux é professor de Biologia do Galois e responsável pelo conteúdo do curso de Biologia on-line da Eschola.com/cursinho. Para saber mais sobre o cursinho pré-vestibular on-line, visite o site: http://www.eschola.com/
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