Há um limite para a tolerância cultural?
A questão não é meramente retórica, nem diz respeito a questões estéticas ou de outras ordens exclusivamente de gosto. Talvez seja esta uma das grandes questões que incomodam o leitor de Infiel da escritora e ativista somali Ayaan Hirsi Ali.
Crescemos num mundo que, nas últimas décadas, tem travado uma guerra velada entre a disseminação da cultura ocidental, de matriz urbana, industrial, cristã, burguesa, e a manutenção das infinitas outras possibilidades de existência presentes na humanidade, das múltiplas culturas que compõem a família humana.
Essa briga, na realidade, é bem mais longa do que 30 ou 40 anos, pois se remete à um distante passado de encontros culturais da espécie humana: os homens do mundo grego se viam como superiores perante os persas e outros povos e é entre eles que surge o adjetivo de “bárbaro” (aquele que balbucia), os romanos buscaram profundamente latinizar os povos conquistados, Alexandre Magno espalhou as instituições gregas por onde andou, os egípcios tinham os hebreus como um povo inferior e rústico, e assim por diante.
Na modernidade a argumentação cristianizadora e, depois, civilizadora foi justificativa e cenário ideológico para a expansão européia sobre o mundo e suas muitas culturas. Porém no século XX, no período pós guerras, a crítica a ação “imperialista cultural” do ocidente ganhou espaço e força, passando a forçar, inclusive, a revisão nas políticas globais de instituições como a ONU, o Banco Mundial, o FMI.
Passou-se a defender o direito do que então era chamado de “minorias” (termo que foi praticamente erradicado das mesas de negociação diante da constatação de que as minorias em verdade são maiorias, alijadas do poder político institucional ou do poder econômico, mas de modo algum “minorias”).
Apareceram mais nitidamente como grupos organizados, articulados e com demandas das mais variadas as mulheres (grupo que vinha exigindo seus direitos mais organizadamente desde o século XIX), afro descendentes, indígenas das mais variadas etnias, portadores de necessidades especiais, etc.
Situações jamais imaginadas passaram a compor o cotidiano dos debates políticos: o direito a terras sagradas poderia impossibilitar a construção de uma barragem, o direito ao culto e a cultura de um determinado povo pode obrigar a mudanças nas leis dos estados, ou em posturas da ONU e seus órgãos, etc.
Uma vitória, certamente, para a manutenção da diversidade cultural mundial. Mas também um risco, quando trabalhada sem qualquer mediação ou equilíbrio. O direito a cultura pode ser aplicado acima de qualquer outro direito? Existe um direito natural que antecede os direitos dentro das culturas? Questões que já inquietavam os iluministas.
Uma cultura, pelo fato de ser “uma cultura específica”, possui o direito de amputar suas meninas na infância ou na pré-adolescência de partes de seus órgãos sexuais? Uma cultura, pelo fato de ser “uma cultura”, possui o direito de admitir a lapidação (apedrejamento até a morte) em rua, sem qualquer julgamento ou direito à defesa? É “cultural” o direito de se condenar à decapitação em praça pública um homem acusado de roubo?
Ayaan conta dia a dia sua história no seio das sociedades islâmicas mais conservadoras que existem: a somali e a saudita. Incrivelmente, nascida nesse meio e numa família conservadora, Ayaan cria paulatinamente consciência não do que é certo ou do que é errado, mas de onde e como se encontram essas sociedades no conjunto das sociedades modernas.
Há algum tempo, lendo o livro de um jornalista estadunidense – Robert Kaplan – me espantei com a descrição que ele faz de algumas sociedades islâmicas as quais visitou. Diz ele que se sentiu bastante confortável no Irã, uma sociedade islâmica, com um estado islâmico, considerado inimigo por boa parte dos estados ocidentais, mas sem um ambiente sufocante em seu cotidiano, sobretudo em relação à atuação das mulheres na sociedade.
Em compensação, na Turquia, na Arábia Saudita e no Egito, todos eles países “aliados” dos ocidentais, ficara chocado com a situação feminina, beirando a escravização (e muito mais do que somente a expropriação do trabalho). Conclusão curiosa vinda de um jornalista estadunidense.
Em Infiel esses cotidianos sufocantes – para nós “ocidentais” – surgem com uma crueza assustadora. Os costumes clãnicos africanos, as interpretações fundamentalistas do Corão, os estados islâmicos radicais – como a Arábia Saudita (na qual, recentemente, o Sheik oficialmente “perdoou” uma mulher, condenada a 200 chicotadas e muitos anos de cadeia, pelo “crime” de ter sido estuprada) -, surgem numa narrativa que mistura a tentativa de entender como essas coisas se processam e um resquício de rancor e saudade, do que foi ou do que deveria ter sido, dada uma vida tão atribulada como a de Ayaan.
Em verdade muitos fios se entrelaçam na trama da história da vida da autora, desde os regimes políticos da África oriental, até as dimensões do islamismo nessas sociedades. O texto é simples, muito direto, muito singelo, mas, é necessário, para contar essas histórias, para dar seu relato pessoal, uma grande escrita? Penso que não.
A grandeza de Infiel reside na grandeza da própria história, como um divã de psicanalista: uma narrativa livre, espontânea, que sai como uma terapia, e como terapia não há muitas respostas prontas, há coisas que geram rancor, ódio, repulsa, ressentimento, outras geram saudade, ternura, mas todas elas se remetem a questões humanas, muito mais amplas, muito mais profundas, que transcendem a dimensão individual.