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Soy Loco por Ti América - As veias abertas da América Latina

Rodrigo da Silva igler@ig.com.br

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Soy loco por ti América
Marcos Rey
São Paulo: Global, 2005
168 páginas

Dinheiro falso, um atropelamento na esquina, uma prostituta que se apaixona pelo cliente, ou pelas notas que deixa em sua bolsa, bêbados e boêmios, desempregados, prédios em demolição, um locutor da madrugada e mulheres adúlteras, uma cidade alucinada e neurotizante. Bela definição do universo literário de Marcos Rey, executada pelo não menos brilhante João Antonio.

A literatura de um mundo que é um moinho e destrói sonhos tão mesquinhos como o próprio autor, parafraseando mestre Cartola, definiu em um dos sete contos que compõem Soy loco por ti América. 

1978, o ambiente político do país já se abria o suficiente para que autores como Marcos Rey pudessem respirar e escrever algo que não fosse receita de bolo ou copiar os Lusíadas. É neste ano, de início de fim de festa do regime militar, desmoralizado, pressionado, com centenas de exilados fantasmas que batem nas portas dos gabinetes de Brasília, que Marcos Rey lança sua coletânea de contos que agora temos nas mãos, reeditados pela Global. 

João Antonio, em seu prefácio, descreve as preocupações do autor como a do observador de um mundo destroçado, esmigalhado pelo capitalismo, de uma sociedade desumana e permeada pela hipocrisia. João Antonio tinha razão, mas Marcos Rey é mais do que isso.

Existe um lirismo deste mundo que se dissolve das frestas do cotidiano das pessoas comuns. Se o desemprego, o alcoolismo, a prostituição, o crime, a morte, a desigualdade, o desejo e as frustrações dos desejos não realizados pontuam as narrativas existe também o espaço para a simpatia do boêmio, do falsificador que sofre com o preço de seu crime, da festa da elite que acaba – simbolicamente – ao mesmo tempo em que a democracia no país encerra mais um ciclo, com o 31 de março (que sempre foi 1 de abril) de 1964.

Em Marcos Rey não há espaço para o bem ou para o mal, um e outro convivem o tempo todo, se misturam, são conjunturais. Não há o maniqueísmo simplificador dos escritores menores, também por isso sua escrita é saborosa, por ser um jogo de sentimentos nos quais simpatiza-se com o delinqüente, odeia-se o herói, solidariza-se com o destruidor, obriga o leitor a deslocar-se na complexidade da vida. Sem tentar ser uma cópia insossa da vida – e por que nos interessaríamos por outra tal e qual a que nos persegue?  - a literatura de Marcos Rey cria um mundo mítico das bordas da sociedade, que existe à margem dos meios legais, dos trabalhos registrados, da economia formal, da lei, da ordem, sem, no entanto, criar a ilusão de uma independência. Talvez nisso João Antonio tenha reconhecido que na literatura de Rey o capitalismo apareça com tamanha força, criando um mundo que existe associado, mas parcialmente nas sombras. 

No final, em cada conto do livro, o que há são humanos. E nada tão difícil quanto escrever sobre humanos, e nada tão divino quanto escrever sobre humanos. Rey o faz, com complexidade e com divina beleza. Talvez seja apenas uma mania de estabelecer comparações, ou proximidades, mas Rey me diz tanto sobre sua pobre América Latina quanto os beatniks diziam sobre seu triste EUA, em um momento me parecem tão próximos, tão familiares: Kerouak, Rey, Ginsberg, João Antonio, Salomon...

Talvez o mundo de que falem seja o mesmo, improvisações sobre o mesmo tema, embora, muito provavelmente, jamais tenham lido uns aos outros. Apesar deste desencontro espaço temporal falam a mesma língua e, talvez, somente sejam compreensíveis para alguém que já transitou pelos becos da Lapa, pelas ruas perdidas da Barra Funda ou pelos cantos escuros e mal cheirosos de Nova Iorque, Rio de Janeiro ou São Paulo... E, no final, havemos de ser todos loucos pela América.


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