Na década de 40, nos Estados Unidos, um jovem e ambicioso iniciava a escrever e montar um personagem, com uma arte e uma tecnica que modificariam e moldariam a história das HQs: Will Eisner criou o seminal SPIRIT. As Histórias em Quadrinhos (ou comics, no comum norte-americano) (gibi, no comum brasileiro) (novelas gráficas, como deveria ser na minha opiniào) (ou Arte Sequencial, para o próprio Eisner) nunca mais foram as mesmas. Fruto de sua época, era natural que Spirit refletisse o imaginário, a realidade, os preconceitos, e a vivência que o circundavam. Exemplo típico disso era o personagem que, no brasil, ficou conhecido como Ébano, o assistente do herói principal, negro que representava todos os estereótipos de fala, gestos e pensamentos de como ‘deveria’ agir, falar e pensar um negro.
Aos poucos, Eisner foi se incomodando e percebendo o quanto o personagem contradizia seus próprios conceitos. Ao longo do tempo que durou a série, começou a fazer algumas mudanças (imagino que à medida que o reconhecimento do seu trabalho crescia, foi tendo mais liberdade, também). As atitudes de Ébano foram mudando; foi substituido por outros personagens, como um esquimó e, depois, por um detetive negro e culto. ‘Spirit’ terminou na década de 50, mas o trabalho cada vez mais evolutivo de Eisner continuou, assim como a valorização da arte que realizava. E suas ideias.
Charles Dickens também refletiu sua época e seu momento ao escrever ‘OLIVER TWIST’. Principalmente, ao criar seu personagem Fagin que, junto com o Shylock, de William Shakespeare, tornou-se um dos símbolos máximos do judeu agiota, malvado, vilão, corruptor e aliciador de menores, covarde, ladrao ou receptador de roubo. Não sendo propriamente um anti-semita, Dickens tentou diluir a força do estereótipo em ediçoes posteriores (como, por exemplo, cortando e diminuindo a quantidade de vezes que se refere a Fagin como O Judeu). No entanto, como também nunca se tornou um militante Pró-semita, seus esforços não foram muito além disso.
Ao folhear ediçoes antigas do livro, eisner notou que o problema era maior, pois as ilustraçoes originais (e que se tornaram famosas, de George Cruikshank), além de reforçar os estereótipos negativos, ainda eram anatomicamente incorretos, caracterizavam grupos etnicos e populares de judeus que estaria fora do que teria sido Fagin.
Eisner assume a tarefa de recontar a história de Fagin, de como teria sido a vida de um judeu inteligente, mas constantemente barrado pelo preconceito, e sua luta pela sobrevivencia em uma Inglaterra do começo do seculo XIX. É o próprio Fagin, aliás, que conta sua história a um Dickens complacente, na prisao esperando ser condenado pelo que fez ao ‘pobre’ Oliver Twist. Eisner inverte de cabeça para baixo os sinais e não tem medo de assumir que está substituindo os sentidos dos estereotipos, de negativo para um diretamente piedoso e positivo para o judeu (ele diz que o que importa nos estereótipos é sua Intenção): se Fagin não pôde ser um bom rapaz, um empresário bem sucedido, ou até mesmo um milionário, e teve que ser tornar agiota e bandido, foi tudo por culpa da sociedade preconceituosa e racista.
É uma pena que Eisner carregue demais nesta inversao dos sentidos, e o resultado seja um pouco forçado, ainda mais com um epílogo chorosamente exagerado, no melhor estilo de reviravolta folhetinesca. No entanto, permanece sua arte deslumbrante, sempre com o máximo de expressividade e beleza. E, mesmo que no geral “FAGIN, O JUDEU” peque por desequilibrios na conduçao do enredo e nos personagens, e não seja assim uma de suas melhores obras, há a antológica cena do encontro do pequeno Oliver com Fagin na prisão e só por esta, meus caros, vale por milhares de páginas de manuais de roteiro e direçao: são nove páginas absolutamente clássicas!