Na noite do dia 10 para 11 de junho de 1916, em Wych Cross, inglaterra, Roderick Burgess estava pronto. Enquanto no Canadá, Ellie Marsten ouvia e se assustava com uma história para dormir, Daniel Bustamante sonhava com castelos no céu enquanto dormia na pousada do seu pai na Jamaica; Stefan Wasserman, com treze anos, sofria os horrores da guerra de trincheiras; Unity Kincaid, em Londres sonhava com um homem alto e moreno, cujos olhos queimavam.
Burgess estava preparado e, em volta dos seus acólitos, recitou as palavras necessárias para capturar a MORTE. Ele ofereceu a moeda que fez de uma pedra. Ofereceu a canção que roubou da imundície. Ofereceu um punhal do pé das colinas. E o espeto que enfiou no olho de um morto. Ofereceu uma garra que tirou de uma ratazana. Ofereceu o nome perdido. Ofereceu o sangue de sua veia e a pena que arrancou da asa de um anjo. E evocou-A com veneno e com dor. Abriu o caminho e os portões.
E então ACONTECEU! A saga de SANDMAN aqui se iniciou, no cabalístico ano de 1987, narrada por Neil Gaiman, desenhada por artistas empolgados, e capas deslumbrantes de Dave Mckean. Pois o feitiço deu errado e, em vez da Ceifadora, o aprisionado foi seu irmão mais novo, SONHO. E pelo mundo inteiro alastrou-se uma estranha doença, em que alguns dormiam sem mais acordar, como Unity e Ellie; outros nunca mais dormiam, como Daniel, outros se matavam por viverem em um eterno pesadelo.
Em outros planos, o mundo foi tomado por uma história empolgante e misteriosa, com um personagem forte, carismático E misterioso, candidato imediato a personagem cult. Fechado pelo círculo mágico, Sonho vê os anos se passarem, sem falar absolutamente nada, sem ceder um mínimo de atenção. Roderick Burgess envelhece, morre e passa o comando para seu filho, que também envelhece, mas um último descuido permite que Sonho finalmente consiga sair. Setenta anos ficou dentro da célula de cristal. Agora está faminto, nu, sem seus instrumentos de poder e com uma sede feroz de vingança.
O que vemos, portanto, em PRELÚDIOS E NOTURNOS é a busca de Sonho dos seus instrumentos que foram roubados e perdidos pelo mundo, a reconstrução de seu reino, e a retomada dos seus trabalhos. Para isso, encontrará o mortal John Constantine e verá os resultados da bolsa de areia nos sonhos de uma mulher; descerá ao Inferno, encontrará Lúcifer e saberá que o Reino das Trevas agora é um triunvirato!, governado por três reis, e participará do duelo mais belo, poético e mortal que se pode conceber neste universo. E lutará contra os abismos a que podem cair, sofrer, e se rasgar a mente humana.
E nós acompanhamos tudo com o coração na mão, embasbacados com a crueza, beleza e imaginação do relato. Neil Gaiman esparrama seus milhares de pontos a cada virada de página. Somos surpreendidos com cada comentário e frase, que lançam pistas, sugestões, veredas, que serão aproveitadas mais tarde. Somos pegos pela cultura, pela miríade de referências, de dados, de fatos, ou de conjunturas mitológicas, todas amontoadas e cerzidas, com uma força e coerência absolutas. Nunca, nós pobres mortais, teríamos imaginado aqueles lances anteriormente. Nunca, jamais, poderemos pensar diferente após a leitura. Lá está o que deveria ser. O que sempre esteve talvez, mesmo que este ‘sempre’ seja simplesmente minutos antes da escritura de Gaiman no papel.
Karen Berger comenta em sua introdução o quanto foi inesperada tal virada de importância para estes quadrinhos e o modo como se transformou em um ícone cultural do século xx. Diz também que, nesta primeira história, gaiman ainda não está completamente firme. Ele tateia, joga as idéias, experimenta. Posso até concordar com isso, em um certo grau. Posso perceber, lendo agora novamente depois de tantos da primeira leitura, algumas imprecisões, algumas afirmação não tão firmes, um lado ou meio fracos. Mas são ultrapassados por um caminhão de idéias e com uma direção tão claras e objetivos dos seus propósitos... Como seria possivel a alguém não ter já tudo isso em mente?
Caro leitor, saiba que passará medo e sentirá calafrios ao adentrar na casa da ex-namorada de John Constantine, se horrorizará com a demência do Dr. Dee, muito mais horripilante do que qualquer demônio do Inferno de Lúcifer! Ficará queimado, instigado, e incomodado com a história velada de Nada, a mulher que Sonho nunca perdoou e castigou pela eternidade.
No entanto, apesar de todas as emoções que podemos passar pelos Prelúdios e Noturnos, nada nos prepara para O SOM DE SUAS ASAS, quando conhecemos sua irmã mais velha, aquela que deveria ter sido aprisionada em seu lugar, a Morte. Karen Berger tem todas as razões quando diz que esta história significa uma guinada fundamental em tudo o que virá a seguir.
Não somente por causa da apresentação da irmã, a Morte mais descolada, simpática, anárquica, além de pragmática, inteligente, absolutamente responsável para com seus deveres, carinhosa (do seu jeito ruidoso) e sexy que já se apresentou aos olhos humanos, a única personagem que consegue sobrepujar o próprio sucesso do irmão. Karen está certa: “foi o elemento de humanidade e de relações interpessoais que começou a transparecer no trabalho de Neil.
Ironicamente, o catalisador dessa ressonância emocional é um personagem que, tradicionalmente, representa a antítese de tudo isso”. A virada se concretizará e se ampliará nas sagas seguintes, mas está toda anunciada aqui. Além do que, O SOM DE SUAS ASAS é uma das histórias mais belas, com um profundo senso filosófico que já estava presente antes, mas que aqui atinge um ápice. Poesia pura, clássico da literatura.
A editora Conrad vai lançar toda a coleção. Com todo o capricho, apuro e beleza de quando lançou o NOITES SEM FIM. Tamanho ideal, capa dura, papel de primeira, respeito total ao trabalho original, traduções impecáveis. Como deveria ser. É.