NOTAS DA ARREBENTAÇAO parece indicar um momento de transição na literatura de Marcelo Mirisola. O que, a rigor, é uma frase que não diz nada: dependendo do foco que se quer dar ou qual o momento preciso que se olhe, qualquer instante pode ser encarado como ‘preparatório’ ou ‘em caminho para...’ ou ‘seguindo para tal lugar...’. Então, é preciso que se explique.
No entanto, alguns cuidados ao se tratar de Mirisola. Em primeiro lugar, e antes de tudo, sua originalidade. É meio cômico, mesmo que nada surpreendente, como certas pessoas encaram seus livros como uma reencarnação dos beatniks. Algumas associações até podem ser feitas, um certo tique de linguagem, alguns temas, o niilismo, mas o ridículo fica pelo modo como tentam forçar sua. Não, não, não. Mais do que tudo, isso só mostra o modo raso e superficial como tratam Mirisola. O sentido de sua linguagem, de sua escrita, vai por caminhos muito diferentes. Daquele lado, o sexo é libertário e revelador; do outro, é um beco sem alternativas, grosseiro, cotidianeiro; de um lado, o autocentrismo como uma forma de se relacionar e se defender do mundo, do outro o egocentrismo não deixa espaço nem mesmo para os ‘figurantes’, o universo é marceliano até a última gota do esperma; de um lado, a crítica social subjacente correndo pelas entrelinhas ou, pelo contrário, a negação absoluta de qualquer tentativa de tomada de posição (o que, de certa forma, já significava um comportamento de repulsa ao ‘sistema’, independente de como se apresentasse). Do outro, não existe sequer a possibilidade de pensar no caso, pois se parte do princípio da individualização absurda, pois o ‘social’ não existe mais, não há caminhos a percorrer.
De um lado para o outro há mais diferenças e conflitos, originalidade, do que semelhanças e pontos em comum. Mais engraçado ainda: como Mirisola não consegue ‘alcançar’ os seus predecessores (o que nunca sequer passou pela sua cabeça), então é considerado como um autor pretensioso. O que não significa reduzir a importância daqueles para sua escrita, coisa que nem ele diz. Mas querer coloca-lo como uma espécie de reedição beat pós-moderna é um reducionismo barato que prova que tais ‘críticos’ simplesmente não leram seus livros!
Outro cuidado fundamental: sua preocupação estilística. Para que os ficam parados diante do seu monólogo extensivo (e intensivo), da abundância de palavrões, das cenas de sexo vazio e angustiantes, das frases curtas, diretas e certeiras, e consideram que sua escrita é rasteira, escrita às pressas, e sem substância... Ora, passar bem! Neste ponto, eu fico um tanto perplexo: como podem considerar que sua escrita seja simplista, ‘fácil’ de ser feita?! Só consigo pensar que não estamos lendo as mesmas páginas do mesmo autor. Como podem não reconhecer o trabalho continuo, fervoroso, reconstruído e remontado até chegar ao ponto correto? Em Mirisola não há frases soltas, perdidas, desencaixadas.
“A verdade é que eu não tenho a libido de outrora – nem a ciência – para escrever sobre a genealogia das bucetas, mondongos e cus comprados e me recuso, outrossim, a pagar (nem que fosse pra mamãe) para beijar boca de puta. Isso porque flerto com abisminhos triviais e me apaixono por lésbicas no final do mês de setembro e começo de outubro, sou um cara arbitrário, regrado (embora deletério) e, apesar de tudo, acredito em Márcia Denser, Reinaldo de Moraes e primaveras”.
“Ética é uma coisa que o sujeito – aprendi nas gôndolas do Carrefour – cheira, mede, usa, evita e descarta conforme o prazo de validade e a necessidade que imagina ter ao apaixonar-se por si mesmo”. A melancolia, a perplexidade diante do universo e da canalhice do ser humano, o niilismo, correm soltos e abertos, ao lado de uma ironia e um sarcasmos geniais.
“De um lado, Juliano Pessanha escreve sobre ‘o absurdo ininterrupto’ e, do outro, Gombro é engolido pela ‘escuridão’. Eu via televisão desse jeito. O horror – ele continua: ‘é inominável para quem só conhece as palavras dóceis’. Que merda, Gombro. Foi exatamente assim que eu acreditei no Toni Ramos e na Elisabeth Savalla, ‘o infinito, o horror e o eterno são as mesmas coisas’. Até que uma noite Jardel Filho morreu no meio da novela. E a ficha caiu.”
“Que papo é esse de ‘tirar mascaras?’ Exigir ‘orgasmos’? Isso aí era problema dela, que diabo! Malamud resolveu dar umas voltas. Esqueceu o maço de cigarros vazio dentro da geladeira. Uma porra de geladeira enferrujada, aliás. Que nunca fechava direito.
Odiava a palavra ‘orgasmo’. Malamud também não suportava o Ed Motta”. Mais uma coisa: não se pode pensar em seus livros como estanques e separados. É obvio que cada um possui sua ´individualidade´, seu próprio tempo e desenvolvimento. No entanto, fazem parte de um único âmbito, são uma mesma obra, de pontos diferentes (isto é mais do que lembrar do personagem ser único, o que é verdade, dos temas contínuos, e da ambientação) que giram sem chegar, sem desejar chegar, a um centro limitador e restritivo. Podemos voltar à questão da transição. Com “FÁTIMA FEZ OS PÉS PARA MOSTRAR NA CHOPERIA”, “O HERÓI DEVOLVIDO”, “O AZUL DO FILHO MORTO”, e finalmente com “BANGALÔ” (talvez uma das obras mais importantes da literatura brasileira das últimas décadas) assistimos á saga, ao crescimento e desenvolvimento (narrativo e literário) deste ´personagem´, pelos quais suas famosíssimas obsessões foram expostas e escancaradas. Era possível se pensar que haveria um limite para estas tensões, mas Mirisola sempre conseguiu fazer com que o giro continuasse rodando. Quem acompanhou a saga sabe o fim que teve em “BANGALÔ”. A tensão explodiu, houve uma definição. Em realidade, criou-se uma situação limítrofe que levou a um impasse para o que viria depois. Há um desafio pleno, claro, incontornável. Sua literatura atingiu o ponto para o qual deriva as possibilidades que tanto podem ser de retorno (fazendo com que a roda continue girando no mesmo universo onde sempre esteve) quanto de uma superação, passando para veredas ainda não cobertas e, para nós, ainda indistinguíveis.
Enquanto o impasse não foi solucionado, Marcelo Mirisola mexeu, trabalhou, experimentou, cutucou em registros literários diversos e insuspeitados. Em “NOTAS DA ARREBENTAÇÃO” há um apanhado geral do que ele produziu paralelo aos seus romances, como os contos das antologias de Nelson de Oliveira, os “GERAÇÃO 90”s, (no qual se destaca, soberbo!, “Rio Pantográfico”, uma ´carta´ a Mário Bortolloto) ou a novela “Acaju (a gênese do ferro quente)”, publicada originalmente em capítulos, como um folhetim, na revista CULT. Ficaram faltando, uma ausência sentida, as crônicas que Mirisola escreveu para a internet, deliciosas peças de literatura e de opinião que provaram o quanto é possível ter vida inteligente, provocativa e instigante. Em seu lugar, outra surpresa, outro registro: uma peça, um monólogo!, que fecha este volume. O que virá, portanto? Em se tratando de Mirisola, a única certeza é que se pode esperar de tudo.