Talvez seja um tanto surpreendente que “Persépolis” consiga nos emocionar e impactar do modo como o faz. Seus desenhos são simples, quase esquemáticos, e a narrativa é dramática, mas beirando pelo melodrama, prima-irmã de alguma novela mexicana.
Neste segundo volume, acompanhamos a Revolução Islâmica tornando-se a ditadura religiosa que impôs rígidos princípios e costumes moralizantes (degradantes e humilhantes, segundo os liberais pais da pequena Marjane), como o uso do véu para as mulheres, ou a proibição de festas ou de artigos importados, tais como rock, jeans ou brincos. Vemos também a desastrosa guerra contra o Iraque e as conseqüências para o dia-a-dia. A ditadura cobra submissão do povo e persegue e mata os dissidentes, estimulando a delação; a guerra cobra a vida dos combatentes (um milhão de mortos), a corrida para os abrigos durante ataques aéreos, a falta de mantimentos, e a fuga do país, principalmente dos garotos, pois a partir de treze anos eles já eram convocados e participavam, e morriam, nas batalhas. E vemos o crescimento de Marjane que agora é uma adolescente que gosta de roupas, de baladas, e precisa sair do país para sobreviver.
O fato, no entanto, é que “Persépolis”, a saga histórica autobiográfica de Marjane Satrapi, emociona. Ela consegue nos pegar pelo estômago, pelo coração e pelas vísceras, ao contar de sua vida e do seu país. É lógico que há a contribuição de um certo ‘exotismo’ do tema e do lugar, resultados da ignorância geral sobre suas circunstâncias históricas, o que serve como um verdadeiro chamariz. A preponderância nos noticiários sobre a guerra contra o Iraque também auxilia na curiosidade sobre como funciona a visão de uma pessoa ‘de dentro’. Mas, também é lógico que nada disso adiantaria se autora não tivesse mão firme e conseguisse narrar convincentemente. Marjane Satrapis é mais do que convincente.