É considerável, ainda hoje, a impressão de que as Histórias em Quadrinhos (ou Arte Seqüencial, conforme a designação de Will Eisner) (ou Gibi, no brasileiríssimo termo) sejam, na melhor das hipóteses, uma diversão fútil, passageira, para crianças, ou diretamente infantilóide. Ou, então, um desvio de literatura inútil, um esforço de leitura desperdiçado, que poderia ser canalizado para literaturas mais ‘sérias’. Na pior das hipóteses, provoca burrice, incita ao crime, deforma a mentalidade, inculca o desrespeito, valoriza a violência.
Os argumentos são bem conhecidos (incluindo no rolo também os mangás, as hqs japonesas, a televisão, desenhos animados, novelas, programas de auditório, Tc). Há bem pouco tempo, houve um autêntico escândalo em relação a um desenho animado japonês que deixava as crianças neuróticas, a ponto de precisarem ser internadas. Também houve o caso do rapaz que assassinou pessoas dentro de um cinema enquanto era exibido um filme particularmente violento. Relação de causa e efeito, certo?
Nada, nada de novo. Mesmo assim, é difícil entender com precisão o grau de virulência que esta discussão já atingiu. Implicava em defender (ou ofender) profundos interesses não só morais, mas econômicos, políticos, culturais. Gostaria de pegar dois exemplos citados por Gonçalo Jr, que eu particularmente considero bem interessantes:
Por exemplo, em 1953 o escotismo brasileiro se pronunciou a respeito:
“O escotismo, como entidade orientadora da juventude, não pode ficar alheio à onda avassaladora de folhetos e pequenas revistas inapropriadamente chamadas de ‘leitura infantil’, especialmente as tão propaladas historietas em quadrinhos que, sob o pretexto de combater o crime, apresentam os mais horrorosos quadros de degeneração humana, dando ensejo a que a mentalidade juvenil vá aos poucos sendo absorvida pelos maus ensinamentos que ministram com a apresentação das artimanhas e vilanias de criminosos imaginários. Recomendamos a todos os dirigentes escoteiros uma grande campanha de combate a tão perniciosos veículos de perversão” (21 de junho de 1953, União dos Escoteiros do Brasil).
Os vilões perniciosos e degeneradores eram do calibre de um “Super-Homem, Roy Rogers, Zorro, Príncipe Valente, Flash Gordon, Lassie, Pernalonga, Frajola, Piu-Piu, Demolidor, Aquaman, Homem-Aranha, Batman, Tarzan”, que combatiam o mal, salvavam o planeta Terra e o universo, e corrompiam a juventude brasileira.
Em 1951, Carlos Lacerda, que não era conhecido exatamente por sua delicadeza de expressão (era ele quem dizia que Getúlio Vargas devia ser destituído do poder, vivo ou morto), dizia entre muitas outras coisas: “A idéia dessas revistas é que o crime seja uma condição normal de vida. Há a idéia de que a vida passa num plano superior a todas as contingências humanas e, ao mesmo tempo, ignorante de todas as onipotência divinas – pois Deus só ser compreendido pelo homem no plano estritamente humano. Deus não admite super-homens, supermacacos nem super-Robertos Marinhos. Portanto, não se supera o plano do humano para atingir o divino. É claro que esses superhomens, esses supercamundongos, esses superbandidos, essas supermulheres de coxas superlativas, essa mitologia truncada e monstruosa das historias em quadrinhos vendem milhões neste país. É claro também que não se fica no plano estritamente humano em que as histórias para crianças se desenvolvem e contribuem para seu próprio desenvolvimento”.
O ‘Roberto Marinho’ citado por Lacerda é o mesmo quem, mais tarde, construiu o império da Rede Globo, mas que na época já era um dos mais importantes empresários de comunicação do país, um dos responsáveis pela difusão das HQs no Brasil, e um dos personagens principais deste livro de Gonçalo Jr.
Mas, não é ele o destaque maior deste “A GUERRA DOS GIBIS”. É o seu adversário, seu maior competidor, seu ‘super-inimigo’, Adolfo Aizen. Ou talvez o verdadeiro super-herói desta história, pois foi o responsável pelo começo da publicação das HQs no Brasil. Foi quem, na década de 30, sentiu e percebeu o que estava acontecendo no mercado europeu e norte-americano de revistas, viu o que era publicado, o sucesso que fazia, e teve a certeza de que poderia repetir este sucesso por aqui.
Os problemas eram vários, principalmente técnicos, novas máquinas precisariam ser montadas, um outro tipo de editoria tinha que ser instalado, no mínimo um investimento considerável seria necessário. Levou a proposta para seu amigo Roberto Marinho que, no entanto, desconfiou das possibilidades e não comprou a idéia. Aizen foi em frente, montou o negócio e começou a desfrutar do seu pioneirismo. Ao perceber que havia perdido uma boa chance, Marinho recuou e começou ele próprio a investir também no mercado. Formando, assim, o primeiro momento desta Guerra que agitou o Brasil, esquentou cabeças e formou gerações.
Gonçalo Jr esmiuça os detalhes das batalhas que se seguiram. Acompanhamos passo a passo os lances, quase mês a mês. A fortíssima base documental, garantida pela intensa pesquisa realizada pelo autor durante por volta dez anos, faz com que nos sintamos participantes de uma história muito próxima a nós e, ao mesmo tempo, tão desconhecida.
E também muito atual. Pois à medida que este mercado foi crescendo e se fortalecendo, fazendo parte constitutiva da nossa cultura, a estranheza, os escrúpulos e os preconceitos também acompanharam, formando a Cruzada Santa contra os Quadrinhos. Que, é preciso ser dito e Gonçalo o faz com propriedade, nunca foi somente brasileira, era internacional, principalmente norte-americana. Leis foram votadas, medidas governamentais foram pedidas, a censura foi exigida, aqui, nos Estados Unidos, na Europa. No Brasil, as consequencias desta guerra foram profundas e marcam nossa cultura até hoje.
“A GUERRA DOS GIBIS” é um trabalho extraordinário, não só por conta pelas informaçoes e pelo grande resultado jornalístico e histórico, mas por ser escrito com paixao e sentimento. E, além de ser emocionantemente bem narrado, traz à tona esta extraordinária figura de Adolfo Aizen.
Para complementar, a Companhia das Letras ainda traz um belíssimo encarte colorido com dezenas de capas originais de gibis. Simplesmente maravilhoso.