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A Dália Azul

Claudinei Vieira igler@ig.com

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A Dália Azul
Raymond Chandler
Conrad do Brasil
104 páginas

“A DÁLIA AZUL” é uma curiosa mistura do trabalho de dois artistas fabulosos que ajudaram a moldar a cultura do século 20, temperada com uma forte dose de ironia do destino. Os artistas são, de um lado, Raymond Chandler, romancista e contista de histórias policiais, um dos pilares para a formação e renovação da literatura contemporânea (não só policial), ao prosseguir com a revolução detonada por outro grande escritor norte-americano, Dashiell Hammett. Juntos, eles trouxeram a figura tradicional e intelectualóide do detetive cerebral (representado por um Sherlock Holmes e Hercule Poirot) para a dura realidade do cotidiano urbano, feroz e violento modernos. A guinada que eles proporcionaram determinou e influenciou o cinema, o teatro, a literatura, e demais artes, em conseqüência. Chandler escreveu o roteiro do filme para Hollywood, com nome ‘A Dália Azul’, na década de 40.


De outro lado, Filippo Scózzari, quadrinista italiano que participou da revolução na década de 70 e posteriori nas artes gráficas, da contra-cultura, das HQs, pelas páginas da estremecedora revista FRIGIDAIRE. Nesta anárquica, anarquizante, deglutidora e vomitória metralhadora cultural, tudo cabia. Exatamente como se fosse uma geladeira. Estilo Frigidaire. Portanto, a gozação já começava pelo próprio nome. Subversão era seu lema secreto (nem tão secreto, por certo).

Assim, era possível encontrar “uma mistura caótica e cínica de textos, fotos e quadrinhos a respeito da guerrilha da América Central, Devo, travestis brasileiros, William S. Borroughs, Patagônia, produção de heroina na Tailândia, Bioy Casares, Céline, rock polonês e coisas assim”. Havia um encarte inicial, “chamado apropriadamente de Freezer” que “era uma antologia de fotos de cadáveres, vítimas fatais de atividades eróticas extremas”, conforme Rogério de Campos em sua apresentação desta edição brasileira.

 Bueno, Filippo Scózzari teve a incumbência de retomar o roteiro escrito por Chandler e transforma-lo em uma HQ, publicada por fim em capítulos pela Frigidaire.
A grande, enorme, ironia disso tudo é que os dois odiaram até o mais profundo de sua alma o que fizeram.
Aliás, há mais uma ironia para ‘dourar’ o seu ódio: tanto o filme quanto a HQ são considerados atualmente como clássicos, cada um de seu lado.


Talvez seja meio exagero considerar o filme lançado em 1945 como um clássico. Deixo passar. Como diz Rogério de Campos, o tempo, os especialistas, e os fãs de Chandler deixaram o filme quieto e quase esquecido. Mas, o fato crucial é que Chandler odiava Hollywood, odiava o high society californiano e cinematográfico, odiava escrever roteiros, principalmente por conta das pressões e cobranças ridículas e medíocres da industria hollywoodiana, odiava aquele ambiente faiscante, fútil e vazio, e odiava ganhar aquele dinheiro que, em se tratando de tal lugar, significava Muito dinheiro. Teve que se encharcar de álcool e se guardar em regime fechado dentro de casa para escrever o roteiro de ‘A Dália Azul’. E em três semanas, pois o astro principal do filme, Alan Ladd, seria convocado pelo Exército e não poderia gravar mais depois. Chandler xingou, esperneou e reclamou, mas a ironia se manifestou: o filme foi um sucesso de público, até a crítica se resguardou sem incenso, mas também sem lascar o pau. E o roteiro foi indicado para o Oscar.


Trinta e cinco anos depois foi a vez de Scózzari. Ele pegou o texto, leu, considerou chato e boboca, ficou desanimado, mas engoliu em seco e foi em frente. À medida que escrevia e desenhava os capítulos, seu desânimo e impaciência foram crescendo, até chegar à exasperação. Não se conformava em trabalhar em uma droga tão grande, monótona e besta. Aos poucos foi demonstrando sua insatisfação com pequenos dardos lançados de vez em quando, saía do texto, ironizava, escrachava, proporcionava novos sentidos para a história e para os personagens. Só assim suportou o ano inteiro de trabalho que durou a série, até o ponto final, onde pôde expressar todo seu ódio em um epílogo original, todo seu, e absurdamente genial e maravilhoso.


Scózzari nem suporta pensar nisso, mas sua imagem está indissoluvelmente associada a “grrrrr” ‘Dália Azul’.
Podemos ser compreensivos e até entender todo os percalços sofridos por Raymond Chandler e Scózzari. No entanto, é através de seu sofrimento que podemos hoje, apreciar o filme (que, se não chega a ser um clássico, também não é tão ruim) e a novela gráfica, exemplo perfeito do que pode conseguir o talento e a genialidade. Azar dos autores. Sorte, muita sorte, para nós, leitores.


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