O medo faz parte da nossa condição primeva como seres humanos. Somos assolados de medo, seja como receio de ser comido por um tigre-dente-de-sabre, ser atacado por uma aldeia inimiga ou ser assaltado em uma esquina qualquer. Embora, isso talvez diga mais respeito ao fato de sermos animais, ao deixarmos que nossos instintos de sobrevivência gritem para nossa própria proteção. Mas, o que é certamente Humano, com todas as suas letras, é o fato de podermos nos Divertir com o medo!
Muito já foi dito e muito mais ainda pode ser discutido, explicado e analisado, da importância da mídia às equações psicanalíticas, sobre o porquê isso acontece. Este não é o lugar nem o momento para entrarmos nesta discussão. Basta lembrarmos que adoramos sentir medo, seja ouvindo uma história junto de amigos, seja descendo de uma montanha-russa, assistindo um filme.
Ou pela Literatura, a forma mais pura e direta de nos envolvermos em um clima de puro terror. Pode-se argumentar que isso não é verdade, que o medo assim absorvido torna-se fluido e amortizado pelo ritmo que nós, como leitores, podemos imprimir: sempre podemos fechar um livro, por exemplo. Operação um pouco complicada em um outro lugar, como um cinema, onde o fato de sentarmos na poltrona já pressupõe um enorme esforço anterior. Custaria mais, portanto, levantar e sair desta poltrona, do que simplesmente deixar o livro de lado. Ao passo que tentar sair de um carrinho de montanha-russa no meio do caminho seria um tanto ‘impraticável’.
Tudo isso é mais ou menos verdade. Pois é neste ponto que entram em cena os Mestres. Pois eles nos pegam pela garganta, nos assombram com a força de sua escrita, simplesmente não deixam largar a leitura. é o que acontece com um Poe. Precisamos saber o que vai acontecer, precisamos ir até o fim, precisamos ser conduzidos até o limiar da loucura e da insanidade como acontece com os personagens amaldiçoados de H. P. Lovecraft. Precisamos ser envolvidos pelo onírico, pelo misterioso, como nos escritos de Dino Buzzati. Ouvir, e saber como o som do vento pode ser lúgubre, como nos mostra Vladimir Korolenko.
Flávio Moreira da Costa, romancista, contista, ensaísta, antologista, nos proporciona mais uma nova, deliciosa (e, no caso, terrível e aterrorizante) viagem pela literatura mundial. “OS MELHORES CONTOS DE MEDO, HORROR E MORTE” traz nada menos do que o nome promete. Temos, de um lado, uma pegada firme e ‘calorosa’ de um Poe, de um Sheridan Le Fanu (que está tendo, finalmente, a oportunidade merecida de se tornar mais conhecido no brasil!; aos poucos, em um livro e outro, seus textos estão aparecendo), de um Bram Stoker (que, sim!, escreveu mais coisas do que seu mais famoso romance, do nosso querido Conde). Pode-se passar para um registro mais clássico, elegante e sutil (talvez por isso mesmo, não menos amedrontador) de D. H. Lawrence, de Edith Wharton, de Arthur Machen. Temos a chance também de conhecermos, ou de reconhecer, contos de autores em geral não associados com o tema, como Balzac ou Flaubert ou o nosso Machado de Assis! (a cena do rato sendo queimado à luz da vela...!) (dando um tapa nos preconceituosos que não admitem que ‘Literatura’ e ‘Escritores’ possam se encaixar com determinados temas).
Não precisa esperar mais. é só sentar, ler, e sentir arrepios. E tente fechar seu livro nos momentos mais tenebrosos.
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