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Literatura em família

Gabriella Mancini igler@ig.com

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Clarice Bean – Sou Eu
Lauren Child
Editora Ática
32 páginas

Quer conhecer a família de Clarice Bean? Pois ela está no livro “Clarice Bean – Sou eu”, uma história feita de personagens muito parecidos com pessoas que conhecemos na vida real, escrita e ilustrada por Lauren Child (que carrega um sobrenome bem adequado para uma escritora de livros infantis).

Quem conta a história criada por Lauren é a própria Clarice, uma garotinha que vive com três irmãos, seus pais e seu avô numa casa com quintal. Sempre recebem a visita de parentes, o que significa dizer que a casa de Clarice é barulhenta e agitada – coisa que a menina adora! Alguém já viu criança reclamar de bagunça? Silêncio, só na hora de ver tevê reunidos na sala.

Nas páginas de “Clarice Bean – Sou eu!”, a personagem o livro revela seu universo: primeiro se apresenta para em seguida mostrar ao leitor seu quarto, sua casa e seus parentes mais próximos. É muito interessante e divertido acompanhar a percepção bem-humorada, simplista e ingênua de Clarice sobre as relações familiares – entre pais e filhos e entre os irmãos - que causam identificação ao leitor. É o pai que vive falando ao telefone, a mãe que nunca sabe onde deixou a bolsa, o avô que não enxerga bem os números do baralho, o vizinho que só sabe imitar – e é por causa desse vizinho que Clarice vai se meter numa confusão ao final do livro.

Quem convive com crianças sabe como elas são grandes críticas da realidade e como captam a essência de cada pessoa, muitas vezes expressando isso através da imitação de falas ou gestos do pai e da mãe.

Clarice é apenas mais uma criança que acha o irmão mais novo um pirralho irritante, que tem uma irmã mais velha que a chama de pirralha irritante e adora ler revistas sobre garotos, e que tem ainda um irmão adolescente que vive trancado no quarto, reclamando que a vida é chata e ninguém o entende. Ela se acha “injustiçada”, como tantas outras crianças mais novas, porque os irmãos mais velhos têm um quarto só pra eles e ela é obrigada a dormir sob o mesmo teto do Grilo Falante (seu irmão mais novo). Ter um quarto só pra ela é um dos seus sonhos.

Através dos olhinhos de Clarice, Lauren Child faz uma crônica sobre a família classe média, a adolescência e o mundo moderno, onde o relógio virou um grande inimigo.

“Quando a mamãe quer paz e sossego, ela fica numa perna só no quarto dela, ou deita na banheira e põe a música das baleias. Às vezes ela acende umas velas perfumadas, ou toca uma fita tipo ‘Aprenda uma língua estrangeira em quinze dias’. (...) Às vezes eu digo ‘Mãe, você nunca fica cheia?’ E ela, ‘Não tenho tempo pra isso’.”

A linguagem usada para apresentar esses personagens curiosos é a de uma criança, ou seja, simples e concisa, próxima à fala, cheia de “Minha mãe disse” e “Meu pai disse”, citação muito recorrente na infância. Vejamos um diálogo “carinhoso” entre Clarice e sua irmã mais velha:

Daí ela fala: “Some daqui!” E eu pergunto, “Por quê?” “Porque eu não quero falar com você.”  “Por quê?” “Porque você é uma pirralha muito chata.”

Os desenhos são outro destaque do livro, com observações escritas “à mão” como se a menina tivesse rabiscado as ilustrações.

Clarice também é a estrela do livro “Tipo assim – Clarice Bean”, em que ela precisa aturar uma professora que pega no seu pé.

Com a série “Clarice Bean”, as crianças vão se identificar e os adultos vão se lembrar de brincadeiras que faziam na infância, como desenhar um relógio no braço com canetinha, esconder-se no saco de roupa suja, brincar de equilibrista no quintal, plantar bananeira. Porque apesar dos videogames e computadores, as crianças de antigamente têm os gostos muito parecidos com as crianças de hoje em dia. E um bom livro continua agradando-as em cheio!


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