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O Vampiro que ri

Claudinei Vieira igler@ig.com

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O Vampiro que ri
Suchiro Maruo
Conrad
244 páginas

Logo na capa há o aviso “Quadrinhos Adultos”. É melhor levar a sério. Embora, considere a frase fraca. Quem sabe fosse necessário algo de mais impacto. Tipo “Obra não recomendável para pessoas de mente tacanha, de estômago fraco e espírito sensível acostumada a observar o mundo e a arte com seus próprios, baixos e pobres valores morais, que ainda acreditam que mangás sejam gibis, revistinhas, publicações dirigidas para crianças. Ou que considerem o Dragon Ball o máximo de violência que já viram na vida”. Algo já foi dito antes, no estilo “Esqueçais toda a esperança, ó vós que entrais”. Para os demais, a esperança só está começando. Porque há vida inteligente aqui. Bom, talvez seja esse o problema. Entrar no universo de Suchiro Maruo exige, antes de tudo, uma boa dose de inteligência; no mínimo, um certo bom senso para se compreender que se está diante de um mestre. Mesmo que a matéria da qual ele se utilize já esteja morta, putrefata, violentada, estuprada, cagada e mijada encima.

No entanto, é compreensível que narizes sejam torcidos. Ele não faz parte da poderosa cadeia de mangás que assolam o planeta. Não que não exista coisa boa no gênero, ao contrário: muito dessa produção é um saudável refrigério ao que se convencionou chamar de ‘politicamente correto`, com seus desenhos e artistas bonitinhos, xaroposos e idiotas. Mas, Maruo vai muito mais além. É o Grand Guignol em toda sua plenitude (palavrinha interessante de se associar, não?).

A rigor, não é apropriado chamar o trabalho de Maruo de Mangá, e sim de Gekiga, conforme Rogério de Campos em sua introdução. Este foi um termo criado em “1957 por um artista adolescente, Tatsumi Yoshihiro, para descrever um novo tipo de história em quadrinhos, adulta, realista e, com freqüência, bem politizada”. Não se associa aos mangás limpinhos e tradicionais, orgulha-se de sua liberdade de expressão, de sua imensa criatividade, de seus ataques ao stablishment, do horror ao `politicamente correto`, da falta de frescura, enfim. Em termos práticos, uma revista do estilo, como a respeitada Garo vende por edição por volta de vinte mil exemplares, número que para nós, brasileiros, são extraordinários. No Japão, é bem diferente. Basta lembrarmos do que Rogério diz, ao citar Shonem Jump, revista que vende por volta de cinco milhões de exemplares, em uma semana.

Se pegaram o sentido do gekiga, mas ainda não sabem o que é Grand Guignol, deixo-os aos cuidados de Hiroshi Aramata que traça um bom perfil histórico na apresentação. Por aqui, creio que seja suficiente dizer o Grand Guignol tem suas raízes pelo século 18 na França e se refere a um tipo de representação (literária, dramaturgia, cinematográfica) que utiliza o máximo de escatologia, violência explícita, violação dos sentidos, sexo, e muito humor negro. Em nome de quê? Do mais puro prazer sensorial, sem dúvida. E, depois, da subversão política e  social, é óbvio. Serve, ao menos, para sacudir consciências apáticas.

Em “O Vampiro que ri”, Suchiro Maruo retoma tudo isso, passa para os quadrinhos, com um vigor e maestria que deixa os desavisados assustados. A quantidade de referências conhecidas e utilizadas por ele são enormes. O título já é uma homenagem direta a um clássico francês, ao “Homem que ri”, do romântico Victor Hugo, onde uma criança é comprada por ciganos, tem sua boca cortada e os lábios arrancados para possuir um tétrico sorriso eterno, e é vendida para circos de horrores. Grand Guignol.

Outras referências óbvias são o Cinema Expressionista Alemão, a história e literatura francesas, o gótico inglês, o cinema trash norte-americano, e por aí vai.

E a arte gráfica de Maruo é primorosa! Detalhista, minuciosa, exuberante, belíssima. Rogério de Campos destaca a página 111, com o vampiro deitado sobre sua vítima rodeados de milhares de flores, como exemplo do preciosismo e do cuidado gráfico do autor em comparação com as massivas e apressadas publicações de mangás em geral (mesmo quando estas possuem qualidades). Gosto em particular da página 163, com sua chuva de vidro quebrado, e da 194, com a explosão de fogos glorificando o ‘nascimento’ de mais um vampiro. 

A ação se passa no colégio Yaku e arredores. Um de seus alunos, Kônosuke Môri, foi transformado em vampiro pela Corcunda e está descobrindo os prazeres e o êxtase de sugar sangue alheio. Ao seu redor, a vida corre: adolescentes se prostituem, vendem suas calcinhas por dois mil ienes, com pêlos pubianos é mais caro; têm os que também compram seu mijo; os garotos se divertem espancando mendigos e moradores de rua; o gordo Kan trabalha como palhaço de dia e estupra meninos de noite enquanto Sotoo Henmi gosta de tacar fogo em cortiços. O normal.

A inversão de valores promovida por Maruo é alucinante. Os vampiros são monstros, com certeza, que metem medo; no entanto não são mais monstruosos do que as pessoas ‘normais’. No final das contas, não são eles os vilões! Até mesmo receiam o que poderia acontecer se Henmi também fosse transformado. Possuem, inclusive, um certo código de ética que faz Môri se sentir responsável pela sua tutora, a Corcunda. Por uma extrema ironia, a seu modo, são eles quem mais prezam a vida, mesmo que depois da morte.

Pois bem, os avisos foram dados. o mundo e a arte de Suchiro Maruo, com seu sangue, vigor, vômitos, estupros, mutilações (físicas e morais) estão a sua disposição.

 


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