O que é Discworld? Isto é, alem de ser um universo plano, cujas quatro pontas são sustentadas por um elefante cada, todos encima de uma enorme (muito, muito enorme, grande mesmo) tartaruga? (o que dá um sentido bem literal ao termo ‘fim do mundo’; neste caso não é nada alegórico). Por Discworld transitam os cavaleiros mais idiotas, os feiticeiros mais incompetentes, as bruxas mais malucas, os corruptos mais corruptos e estúpidos (e não estamos falando de Nova York nem de São Paulo!), donzelas esquisitas e nada frágeis, e dragões, mais ou menos, extintos. Pense, por exemplo, em Conan, o Bárbaro, e no Senhor dos Anéis, um pouco do Harry Potter também, tudo ligado por um humor satírico, cáustico, sarcástico de um Monty Phyton, tudo contado por um inglês maluco e gozador. Discworld. A editora Conrad nos traz mais um volume da série que já vendeu mais de 21 milhões de cópias no mundo inteiro e foi traduzida para vinte e sete línguas. Não é difícil entender porque. Terry Pratchett consegue insuflar um humor tão inusitado, coloca as certezas absolutas de pernas pra o ar, destrói todos os clichês de uma forma original e hilariante... é impossível não se deixar levar, entrar neste universo e rir muito, demais. Ler qualquer dos livros de Discworld equivale a boas doses de saudáveis gargalhadas. Em “GUARDAS! GUARDAS!”, a vida corria normal em Ankh-Morpork, a maior, mais antiga e mais imundas das cidades, onde à noite “os assassinos assassinavam, assaltantes assaltavam, vadias vadiavam”, e assim por diante. Ankh-Morpork, aliás, tinha atingido um equilíbrio admirável entre o governo, os sindicatos de criminosos e a polícia: havia os lugares e datas certas dos crimes serem cometidos e a polícia, a Guarda, bom, ficava na dela. Mesmo porque só havia dois guardas e um oficial, depois acrescidos de um voluntário que, pelo seu tamanho, valia por dois e cuja honestidade era de uma estupidez burocrática impressionante, pois no seu livro de leis de bolso dizia que os criminosos tinham que ser presos, ora vem só. Mas, as coisas iam mudar: uma supersecreta seita de feiticeiros amadores consegue invocar a presença de um dragão, daqueles de antigamente, que soltavam fogo pelas ventas, gostavam de carne humana e de dormir em cima de um monte de ouro. A idéia era que quando o dragão estivesse queimando e destruindo toda a cidade, um nobre, devidamente arquitetado e manipulado por eles, o matasse, tornando-se assim o Rei e desbancasse o atual Administrador. Haveria alguns problemas, por certo: invocar dragões dá trabalho e mandá-los embora, mais ainda; encontrar (ou inventar) um nobre embora a monarquia também já estivesse extinta; convencer a população de que ele mereceria ser o rei; e, pior, trabalhar com feiticeiros tão covardes e estúpidos. Como em todo plano perfeito, este não tão perfeito assim, pois o Dragão resolve não ir embora, e como também é de linhagem nobre, nada mais natural que seja ele o rei! Depois de queimar e destruir metade da cidade, é lógico. Quem vai se opor a tal monarca? Quem teria a coragem, o destemor, a estupidez? Ora, os guardas! Junto com seu oficial e o novato. E contra toda a sua vontade.
Há dois detalhes a se frisar dos escritos de Terry Pratchett: em primeiro lugar, o seu humor não é raso. Isto é, suas histórias não são, somente, uma sucessão de gags engraçadas, ou de piadinhas instantâneas. Ao contrário, os enredos são consistentes e muito bem elaborados; as histórias tem sacadas geniais; mas o principal é que seus personagens são tão bem construídos e interessantes que chegam a ser carismáticos e impressionam nossas mentes. Sem dúvida, são caricatos e exagerados, mas não são bidimensionais, possuem personalidade e uma, certa, profundidade. Mesmo nos personagens secundários, podemos perceber suas características, passadas com força e precisão, mesmo que em pouquíssimas palavras. Pratchett é um escritor extraordinário.
Por outro lado, há que se destacar que, aliado ao seu humor ferino, o que se sobressai é sua visão crítica, impiedosa e nada gentil da humanidade, com seus defeitos, feiúras, burrice. Não há heróis em suas histórias, ou melhor, são heróis a contra-gosto, por conta da situação que os obriga, apesar de sua covardia, ganância, acomodação, fraqueza. A honestidade quando existe (o novato é o único honesto em toda a cidade), é sinônimo de burrice pura.
Desta forma, o humor de Pratchett não é inocente nem pueril. Ele nos provoca, além de risadas, uma profunda reflexão sobre nós mesmos e sobre o mundo que vivemos. Que pode não estar cercado por dragões, mas parece bastante com muitos lugares que conhecemos.
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