É difícil exprimir a devida importância deste “Desvendando os Quadrinhos”. Não é um livro, como enfatiza a propaganda e a contracapa, que ensine “como” desenhar personagens, ou ‘como’ escrever roteiros, ou como expressá-los através das tiras. Não é um manual. É algo mais profundo, tratado de forma leve e divertida. Talvez seja melhor repetir: de forma bem leve e muita divertida, ele desvenda os meandros das Histórias em Quadrinhos como Arte, distinta e diferenciada de outras artes.
Não tenho muita paciência para os que ainda enxergam os Quadrinhos como obras infantis, divertimento de passagem ou aleatório. São os que nunca viram o trabalho de um Crumb, ou de um Frank Miller, ou de um Will Eisner, ou caso passem os olhos podem ate ser condescendentes e dizer que “até que está bem feito”. Há, no entanto, muito mais entre um balão de falas de um personagem ‘infantil’ e um quadro e outro de uma página de uma ‘reles’ historinha do que pensa a nossa vã ignorância ou preconceito.
“Desvendando os Quadrinhos” junta-se a um outro grande clássico de pesquisa, experimentação e teorização sobre o assunto, o seminal “Quadrinhos e Arte Seqüencial”, de Will Eisner, do qual Scott McCloud se assume como discípulo e continuador. É simplesmente magnífica a forma como Scott começa a discussão, ao examinar a sintaxe do termo cunhado por Eisner. Há uma grande diferença entre as duas obras (ou quem sabe seja um desenvolvimento): enquanto “...Arte Seqüencial” é um livro denso, teórico e fartamente recheado de ilustrações para melhor exemplificar os seus múltiplos conceitos, “Desvendando...” é denso e teórico tanto quanto, mas usando da própria linguagem que está dissecando. Isto é, é uma História em Quadrinhos! Que possui a enorme capacidade de demonstrar in natura e no momento tudo o que está propondo. O resultado é de tirar o fôlego, mesmo para os que já estão bem acostumados com a discussão, já conhecem o trabalho de Eisner, e que sabem bem que História em quadrinhos não é a mesma coisa que infantilidade.
Como diz Art Spiegelman, outro grande gênio do mètier,: “Inteligentemente disfarçado numa história em quadrinhos fácil de ler, o livro de McCloud desvenda a linguagem secreta dos quadrinhos e revela os segredos do Tempo, Espaço, Arte e do Cosmo. É a história em quadrinhos mais inteligente que já vi. Bravo”. Nada mal para quem, aos quinze anos de idade, resolveu se dedicar a sua paixão depois de perceber que seria ‘meio’ difícil se tornar um campeão mundial de xadrez! Ao longo dos anos, McCloud tem se destacado como um criador diferenciado que tanto pode pegar um personagem, como um Demolidor, por exemplo, como fazer trabalhos mais alternativos, mas sempre com um toque especial que busca encontrar expressões que saiam dos limites estreitos do comum. Isso pode ser observado tanto no Demolidor citado quanto no seu particular “ZOT!”, entre tantos outros trabalhos, alguns online, inclusive. O próprio Scott diz que, dependendo de quem responde, ele é um ‘teórico mestre dos quadrinhos’ ou um ‘louco delirante’. Não acho que as duas coisas sejam incompatíveis.
Espero que com esta edição comemorativa da M.Books, que celebra os dez anos que a obra foi publicada pela primeira vez, a editora também traga a sua polêmica ‘continuação’: Reinventing Comics, que trata dos quadrinhos influenciados, determinados e re-criados pelo mundo dos computadores e da internet.
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