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Sundiata

Claudinei Vieira igler@ig.com

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Sundiata
William Eisner
Companhia das Letras
32 páginas

Will Eisner era, sobretudo e acima de tudo, um mestre. Seus desenhos encantam pela força e expressividade, a beleza dos traços e a sabedoria do pincel ensinaram e serviram como exemplo e inspiração para gerações. Ainda continua assim. Sua morte dói como ferida aberta, mas seus trabalhos ainda podem ser apreciados. Além de entendidos. Eisner era muito mais do que um grande desenhista. Ele foi o cultor e escultor da Arte das Histórias em Quadrinhos, ou Arte Histórias Seqüencial, como as chamava, e as elevou a um pico extraordinário. É preciso entender que, para além da beleza dos desenhos, havia uma mente que se preocupava com O Quê. Não havia respostas nem saídas facilitadoras. Ao lado do visual impecável, havia um sentido pleno de significado.
Isso desde o início de sua carreira. Se pensarmos na criação do seu personagem mais famoso, o SPIRIT tem-se um exemplo cabal. Lembremos que, na época, no auge absoluto da onda de super-heróis super-poderosos, de detetives super-inteligentes e heroínas super-sexys, a demanda era por desenhistas, ilustradores ou escritores de quadrinhos que criassem mais super-heróis, detetives, aventureiros e heroínas que tentassem alcançar o estrondoso sucesso do homem vindo de Kripton. O jovem Eisner não podia bater de frente com a onda, pelo menos por enquanto, então teve de se render às exigências. Mas, fez isso do seu jeito.
Spirit é um detetive que pode transitar livremente no submundo pois é dado como morto. Seu esconderijo é uma caverna que fica debaixo de sua “tumba” no cemitério. E usa uma máscara. Também é alto e bonitão, apesar de meio atrapalhado. Típico, não? No entanto, o que Eisner faz com seu personagem não é nada típico. Na verdade, com esse material ele praticamente arrasa com toda idéia de um herói tradicional. Cruza humor negro, crítica social, piadas escrachadas e non-sense dignos dos Irmãos Marx, enredos malucos. Tudo com um senso de dignidade inigualável. Não escrachava sua própria criação; ele destruía a noção de histórias simplistas e sem graça, abrindo a possibilidade para oportunidades nunca antes sequer entrevistas.
Eisner ainda trabalharia com Spirit durante muito anos, mas afinal, quando pôde, se dedicou ao que realmente queria: nada de super-heróis, escrachados ou não, mas o ser humano comum e falível de todos os dias, suas histórias banais, suas vidas cotidianas e prosaicas. Eisner passou a ser o cronista dos Estados Unidos através de sua Arte Seqüencial.
“SUNDIATA, O LEÃO DO MALI, Uma lenda africana” é mais um exemplo de sua versatilidade e dos seus interesses. Sundiata foi um personagem real, arquiteto da fundação do Império Mali na África por volta do século 13. A luta contra a opressão do povo de Sasso, comandado por Sumanguru que culminou na batalha de  Kirina, com a derrota fragorosa dos opressores, foi contada em versos, baladas e cantigas, mitificada e tornada lenda. Do poderoso príncipe dos malinqués, Sundiata, chegou-nos sua aura mais dourada e portentosa. Portanto, é uma fábula de bravura, de coragem e persistência.
Eisner nos apresenta a lenda de modo bem modesto: “Segundo os historiadores, existem cerca de trinta versões dessa saga. Esta é mais uma delas”.
NÃO é mais UMA delas. Eisner se utiliza de sua habilidade de narrador gráfico para contar uma bela história. Belamente contada.

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