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Persépolis

Claudinei Vieira igler@ig.com

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PERSÉPOLIS
Marjane Satrapi
Companhia das Letras
80 páginas

Pode-se começar dizendo que Marjane Satrapi tinha pouco mais de trinta e cinco anos quando publicou a primeira parte de sua autobiografia. Fez um estrondoso sucesso, a história de sua vida emocionou e impactou toda a Europa, em principal a França, atingiu os Estados Unidos e agora está aqui. Há, digamos assim, algumas ‘peculiaridades’ nesta autobiografia: em primeiro lugar, é em Quadrinhos! E em segundo, Marjane é iraniana, nascida em uma família de classe média alta (com raízes aristocráticas e até nobres, mas com pensamento liberal e militância de esquerda) que por conta das vicissitudes dos regimes de opressão em seu país teve que estudar e morar em outros lugares. Assim, de uma forma enxuta e simples, têm-se de repente, uma visão privilegiada, interna, de um país, de uma cultura e de História normalmente repletos de incorreções, preconceitos e falta de informações.
Ou então pode-se iniciar pelo que a própria autora coloca: o Irã é um pequeno país de cultura milenar, constante e seguidamente assolada por invasões, destruidores, dominações estrangeiras, regimes de opressão, ditaduras religiosas. E Marjane é uma menina de dez anos de idade quando ocorreu o que viria se denominar a Revolução Islâmica e foi obrigada a aprender a usar o véu para esconder o rosto, estudar em salas separadas dos meninos e se conformar a sua mulher condição de mulher. Para quem, aos seis anos, tinha o sonho em ser a nova Profeta, a última e definitiva enviada de Deus (que ia conversar com ela em seu quarto toda noite), a mudança foi radical e brusca. E é nesse interregno entre estas duas idades da pequena Marjane que se passa este primeiro volume, o começo do entendimento das dificuldades, das contradições das pessoas, inclusive de seus próprios pais, que tinham uma visão tão liberal-esquerdista com fundamentos marxistas, mas andavam de cadilac e não admitiam que sua empregada comesse na mesma mesa (o que irritava sumamente a pequena). Tempos também de descoberta interessantes sobre sua própria família, de revolucionários comunistas, de primeiros-ministros, de príncipes! E tempos de desilusão e revolta com seu ex-amigo Deus.
Sem dúvida, é um grande tema, um verdadeiro épico de uma nação vista pelos olhos de uma criança, que Marjane Satrapi sabe tratar com maestria e delicadeza, sem resvalar na pieguice ou no didatismo besta.
Sua arte gráfica é extremamente simplificada, esquemática, quase que se poderia dizer pobre. Mas esta é somente a primeira impressão. Pois o que Marjane mais trabalha é o  encontro, a mediação, entre esta simplicidade e uma expressividade intensas. O desenho é infantilizado, o que o torna ainda mais potente quando descreve cenas de horror, como nas histórias de tortura de militantes, da chacina de platéia de uma sessão de cinema, ou na comemoração popular de uma revolução bem sucedida. Então, não é pobreza de traços, é o seu contrário. É a plena e consciente utilização de desenhos (que, portanto, não são ‘simples’) a serviço de uma narrativa forte e bela. É uma mescla de tradicionais desenhos
orientais com o mais ‘puro’ e moderno pop do Ocidente.
“PERSÓPOLIS” foi a mais badalada HQ da feira de livros de Frankfurt de 2004 e tem vendido milhares de exemplares (250 mil só na França, conforme os dados desta edição em minhas mãos; é provável que este número já seja bem maior). Depois que se acaba de ler a última deste primeiro volume, dá para entender muito bem por que.

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