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Achei que meu pai fosse Deus

Claudinei Vieira igler@ig.com

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ACHEI QUE MEU PAI FOSSE DEUS – e outras histórias verdadeiras da vida americana
Paul Auster
Companhia das Letras
400 páginas

Este é um livro de histórias; e o próprio modo como ele foi concebido e criado bem que merece figurar como uma das melhores.
Tudo começou logo depois que Auster deu uma entrevista em uma rádio pública e receber uma proposta de fazer um programa mensal. Meio sem saber o que pensar, ele perguntou de que tipo de programa eles estavam pensando. Na verdade, nem eles sabiam o que queriam; quem sabe contar algumas histórias. Com certeza, só pelo fato de ter seu nome envolvido já chamaria a atenção. Sua reação de imediato foi de recusa; afinal, já estava envolvido em tanto trabalho que pensar em mais um tanto, ter que escrever com prazos fixos e contá-las ao vivo complicaria de demais sua vida em si já tão agitada. Mas, por educação, respondeu que iria pensar.
Foi sua mulher, quando ele lhe contou, quem deu o toque que transformaria uma idéia vaga em um extraordinário programa de rádio de grande sucesso e que desembocaria em um livro fascinante. Por que ele precisava escrever? Por que não pedir aos ouvintes que enviassem suas próprias histórias e Paul leria no ar as que considerasse as melhores? Como acontece com as idéias simples e geniais, todos perceberam seu potencial e o que poderia resultar. Ele gostou muito; a rádio topou entusiasticamente e o programa começou com o nome de National Story Project.
Paul Auster especificou o tipo de história que estava interessado: tinham que ser verdadeiras e curtas (para poderem ser lidas) e não havia restrição de tema ou estilo. No entanto, o mais importante é que fossem interessantes a ponto de mostrarem facetas surpreendentes do ser humano. Como diz Auster, “histórias que desafiassem nossas expectativas em relação ao mundo, casos que revelassem as forças misteriosas e incognoscíveis que atuam em nossas vidas, em nossas histórias de família, em nossas mentes e corpos, em nossas almas. Em outras palavras, histórias verdadeiras que parecessem de ficção”.
O resultado foi uma enxurrada de respostas. Em pouco mais de um ano, ele recebeu por volta de quatro mil relatos. Um programa de vinte minutos mensais nunca teria condições de dar conta de tanto. Organizar este livro foi uma forma, portanto, de respeito e um modo de tornar conhecidas um maior número de histórias possível. Auster foi tomado de assalto, ficou assoberbado com tanto trabalho pois tirando os engraçadinhos e os neuróticos e as crianças, ainda sobrava muito coisa (justo ele que queria mais sossego...). No entanto, a questão vai muito além da simples quantidade de relatos.
São, realmente, histórias que impressionam. São relatos diretos e muito simples, escritos por pessoas de muitas condições sociais e educativas bem diferentes; além do que, a preocupação aqui não é encontrar surpreendentes qualidades artísticas, o programa não era um concurso literário. E com toda esta simplicidade, às vezes beirando a simploriedade, o impacto é marcante. Auster diz que depois de algumas sessões de leituras dos textos para escolher quais iriam ao ar se sentia “pulverizado, absolutamente exaurido”.
Talvez porque não sejam simplesmente “histórias”. São depoimentos, testemunhos pessoais, existenciais. Não importa a simplicidade. Uma bicicleta pode adquirir, de repente, uma importância que determina a vida de uma pessoa. Um tapa no rosto pode acabar com a confiança de um criança pelo seu pai. Uma galinha pode atravessar uma rua sozinha. Um pneu pode correr a sua frente, vários pneus podem correr na sua frente. Não faltam guerras, distúrbios, problemas familiares, ou provas de amor e carinho infinito, ou racismo desenfreado. Uma aliança de casamento pode comprar a tão sonhada calça comprida. Um parente pode se esconder de todos envergonhado para morrer de aids.
O que resulta do conjunto de tantas e tais histórias? Qual é o quadro que se pode apreender destas experiências, destas vivências que resolveram se escancarar para um público de várias milhões de outras pessoas e que agora chega a nós em formato de livro? Qual é a face deste Ser Norte-Americano médio, comum, estranho ou singular que se levanta destas páginas?
Pode ser que o que mais perturbe seja a impossibilidade de se chegar a uma conclusão. Qualquer que seja. Os raios se distendem para tantos lados e tão extremos que não se alcança um ponto médio. Auster até que tenta. Por isso ele fez questão de separar os relatos por temas, como Famílias, Objetos, Morte, Sonhos, em uma tentativa (tão norte-americana!) de tentar classificar, compartimentar, de separar. De compreender. Futilidade. Melhor teria sido deixar correr, apresenta-las do modo como vieram.
Desta forma, também fará melhor o leitor brasileiro. Pois deste veio estritamente norte-americano, o que surge é o Humano. Não tente entender ou concluir. Sinta. Cheire. Ria ou chore, pois não faltará oportunidade para ambos.

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