O Sábio ao Contrário é pura diversão séria. Contraditório? Pois aí se justifica a genialidade do autor. Ricardo Azevedo – autor de muitas livros infantis, entre ele o premiado “Um Homem no Sótão” – cria um reino onde temas existenciais e sociais aparentemente sérios demais para uma criança, se desenvolvem com uma leveza e com um bom humor deliciosamente inacreditáveis.
O simpático velhinho estudioso de puns cativa adultos e pequenos ao exercer e defender sua profissão com paixão. Isso mesmo, por meio de suas pesquisas e reflexões a respeito dos ‘gases intestinais’, o Sábio quer ajudar as pessoas e assim dar a sua colaboração para o planeta, mesmo diante do descrédito de todos ao seu redor.
“Digo e repito – prometeu, orgulhoso. – Minha pesquisa ainda vai revolucionar a vida deste reino e do mundo em que vivemos!”
Após recolher e analisar gases dos mais curiosos seres vivos, o sábio ao contrário é capaz de identificar a espécie, as origens, os hábitos, a história de vida e até detalhes como o modo de agir e as manias dos donos dos puns que analisava. O argumento bem colocado dá pano para muitas situações engraçadas e ricas: cheias de metáforas e lições. .
Entre um causo engraçado e outro, o singular senhor vai revelando, além de preocupações sociais, um universo de curiosas questões a respeito de como esta ciência, batizada de Peidologia, poderia ser útil.
“...O pum é um importante ponto comum entre as pessoas, não importa que seja homem, mulher, adulto ou criança. Não importa que seja rica ou pobre. Não importa a profissão. Não importa a religião. Não importa a cor da pessoa, nem se ela viveu a mil anos atrás e nem se ela mora aqui , uma cidade, numa aldeia de índios ou num país distantedo outro lado do mundo. O homem das cavernas já peidava. Toda a humanidade já soltou, solta e sempre soltará puns!”
A delícia que é ler este livro passa por palavras como peidômetro, pumdímetro, miscroscópeido, detonador pneumático de partículas peidorrentas, classificador de densidade peidaneira e por aí vai.
Isso sem contar os causos e aventuras inesperadas capazes de grudar qualquer um ao enredo. Você começa e não querer parar. Nem terminar. Qualidades que só um bom conto de fadas contemporâneo tem.
Ainda em tempo: Ricardo Azevedo é pai das maravilhosas ilustrações da edição, feitas com nanquim, assim como do impecável projeto gráfico da publicação. Vou ter que dizer uma coisa: parabéns.