Bem, quantas vezes vimos Júlio Verne ser definido como um escritor que previu o futuro? Mas será que é possível, conscientemente, um homem prever o futuro? Seu ou de toda uma cultura, de todo uma humanidade? Historiadores e cientistas sociais, em geral, não são nem um pouco simpáticos a esta proposição. O homem mal tem consciência de seus atos individuais, quanto mais coletivamente, quanto mais como projeto que depende de milhões de vontades no decorrer do tempo. Não é esta a grande discussão, o grande tema do pensamento social desde o século XIX? Mas, por outro lado, é fácil também dizer que tal mister não é possível, complexo é compreender como Verne e Da Vinci efetivamente anteciparam não só desejos técnicos como também preocupações. Tal é o problema que até mesmo um filósofo da estatura de Michel Foucault se ocupou dele. Julio Verne foi um homem atento, curioso, imaginativo, alguém que conseguiu desdobrar em sonhos literários os anseios de seu tempo. Seus livros são uma eterna disputa contra o tempo e o espaço: Cinco semanas em um balão, Volta ao mundo em 80 dias, 20 mil léguas submarinas, Da terra a lua, Viagem ao centro da terra... Disputas para as quais o homem do século XIX, bem como o próprio Verne, se muniu da técnica e da ciência, na crença que não havia desafio que fosse insuperável para uma civilização munida de ambas. A história da modernidade é também a história da luta da burguesia para controlar as variáveis naturais, é a história da luta para subjugar a natureza, para conquistar uma técnica que é eternamente criada e recriada, constantemente destruída, lançada na obsolescência numa velocidade alucinantemente em aceleração. Entre os desenhos de Da Vinci e a criação do helicóptero decorreram centenas de anos, mas entre o Nautilus das 20 mil léguas submarinas de Verne e o submarino muito menos de um único século. Verne nasceu em uma época na qual as realizações técnicas podiam ser sonhadas, concretizadas e abandonadas em uma única existência. Talvez por isso seja tão fascinante, por sonhar maravilhas tecno-científicas que ao amanhecer de um novo dia poderiam passar á frente do leitor. Ao mesmo tempo demonstra a incerteza e o estranhamento diante desta dicotomia, deste distanciamento entre a transformação tecnológica, impulsionada pela classe que pode edificar sozinha o que toda a humanidade anterior não havia podido, e o tempo social, cultural. O aparecimento do gigantesco monstro marinho, que é capaz de rasgar com seu corpo os cascos mais sólidos da marinha inglesa ou estadunidense, abre a narrativa de 20 mil léguas submarinas. É absolutamente impensável que tal prodígio possa ser produzido por uma máquina, os monstros marinhos se adequam muito mais ás mentalidades comuns, ao imaginário coletivo, a máquina ainda não foi plenamente incorporada a ele, isto ainda deveria esperar algumas décadas. Um narval, uma baleia, um monstro, jamais um...um o quê? A própria linguagem haveria de inventar um termo para designar o novo objeto, para acompanhar a técnica. Uma vez lançados ao mar durante o embate com o monstro o doutor Aronnax, seu criado Conselho e o arpoador Ned Land são recolhidos no interior do Nautilus, a estranha embarcação do capitão Nemo (um como fica sugerido indiano?). Como não bastassem estes elementos Verne, que cresceu incrivelmente como escritor desde Cinco semanas em um balão, seu primeiro livro, insere elementos que tornam a narrativa ainda mais complexa e deliciosa: o divórcio de Nemo com a humanidade, a crença nos inesgotáveis recursos marinhos, o desejo da autonomia e auto-suficiência. Uma narrativa que não é plana, chapada, e sim cheia de nuances que anunciam também a morte dos heróis absolutamente isentos e previsíveis do século XIX romântico. 20 mil léguas submarinas é um livro fascinante e que deve e merece ser lido por qualquer leitor, de qualquer idade.
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