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RELANÇAMENTO DO TEATRO COMPLETO

Fernanda Sposito igler@ig.com

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Teatro Completo
Nelson Rodrigues
Nova Fronteira
 

Nesse ano que se encerra, a editora Nova Fronteira presenteou o público brasileiro com duas coleções preciosíssimas da obra de Nelson Rodrigues. No primeiro semestre, colocou a público exemplares com as peças avulsas (cujo preço inicial era de R$13,00 e no segundo semestre já custava R$15,00) e em outubro reeditou em quatro volumes a obra completa do dramaturgo (vendidos a R$42,00 cada), cuja primeira edição datava da década de 1980.
 Só se pode dimensionar o caráter dessa empreitada ao enquadrá-la no contexto das publicações de obras dramáticas no Brasil. Nelson é um dos raros dramaturgos brasileiros a ter sua obra publicada na íntegra. Infelizmente, por opções de mercado ou de gosto, as editoras geralmente fazem coleções esparsas de teatro, ou trazendo peças de dramaturgo de todos os tempos e lugares, ou então, publicando o “melhor de”, como se fazer uma seleção de textos não implicasse em juízos de valor e em perda quantitativa. A despeito disso, é muito produtivo que no século XXI as editoras brasileiras tenham voltado a investir nesse nicho editorial, visto que os estudiosos, artistas de teatro e leitores em geral só podiam recorrer aos “sebos”, a bibliotecas especializadas ou a cópias xerox que circulavam por aí, para terem acesso aos textos teatrais. Assim, nas prateleiras das livrarias, encontravam-se quando muito uma dezena de livros teatrais, que eram principalmente textos editados na década de 1980, o que serve para indicar o tamanho dessa lacuna.
 Com relação a Nelson Rodrigues, não havia tanto o que reclamar, uma vez que a Editora Nova Fronteira detinha o direito de publicação da obra teatral completa desde a década de 80. No entanto, ainda que tenha sido republicada algumas vezes do decorrer daquela década, nos últimos anos deixou de figurar nas já desfalcadas prateleiras das livrarias. Nesse ano de 2004, finalmente valeu a pena esperar pela volta de Nelson, que retorna de maneira triunfal em termos editoriais. Assim, como comentado acima, suas peças foram publicadas de forma avulsa, o que barateou seu custo, em edições que se pretendem divulgadoras/didáticas da obra rodrigueana. Como consagração, a famosa coleção do “Teatro completo” de Nelson foi republicada também, numa nova edição modernosa. Essa pretendida modernidade tem aspectos positivos e negativos, conforme se verá a seguir.
Em primeiro lugar, é importante fazer algumas considerações, que nunca são demais, sobre o artista/pessoa Nelson Rodrigues. Nascido em Recife em 1912, Nelson consagrou-se mesmo como carioca, sendo uma personalidade inquieta dessa sociedade, a qual refletiu em sua arte, desde a década de 1940 (quando escreveu sua primeira peça, A mulher sem pecado em 1941) até sua morte, em 1980. Jornalista, cronista esportista, dramaturgo e escritor literário, sua história e sua obra andaram sempre de mãos dadas com a polêmica, seja por suas posições políticas e pessoais, seja pelo teor de seus textos teatrais. Do ponto de vista político, era considerado um conservador e ele próprio se assumia como uma pessoa que não via com bons olhos as revoluções sociais, políticas e comportamentais que abalavam o mundo ocidental nas décadas de 60 e 70. No entanto, do ponto de vista de sua dramaturgia, ele foi extremamente transgressor. Inovou em termos de estética, linguagem e, principalmente, com relação à temática, que impunha sua visão de mundo bastante peculiar. Respaldado por uma visão psicanalítica e mitológica, que dava sustentação a seus personagens, construiu tragédias monumentais, nas quais tanto famílias aristocráticas decadentes como o povão do subúrbio carioca mergulharam no incesto, no homossexualismo, na traição, na perversidade e na inveja. Essas características e fatos serviram para destruir a instituição familiar, retirando dela qualquer inocência e sacralidade.
Nesse sentido, Nelson situa-se num campo contrário aos autores “engajados” da época do regime militar e, sob determinado aspecto, pode ser considerado mais revolucionário do que estes. Os autores ditos “de esquerda” buscavam em sua obra retratar a hipocrisia da sociedade burguesa e a necessidade da revolução social e política. No entanto, autores como Oduvaldo Vianna Filho e Gianfrancesco Guarnieri preservaram a família como uma instituição importante, ainda que carregando dentro dela os conflitos da sociedade onde se situava. Assim, contraditoriamente, Nelson era reacionário, pois apoiava os militares no poder (posição extremamente condenada por muitos artistas e intelectuais do período), mas na forma de conceber as relações humanas dentro da sociedade e da família em sua obra, foi mais transgressor que os intelectuais “de esquerda”.
 Essas curtas considerações feitas servem apenas para colocar a obra rodrigueana inserida numa polêmica que, aliás, nunca deixou de acompanhar a vida desse autor. Nelson, devido à temática de suas peças, teve sempre problemas com a censura, tendo textos como Álbum de família, escrita em 1945, proibida por 20 anos, já que era um de seus textos mais enfáticos na questão do incesto. Com esse texto, depois da montagem consagrada feita por Ziembinsky de Vestido de Noiva, em 1943, na qual Nelson chegou a ser reconhecido como o artista que veio trazer a revolução modernista para o teatro, foi condenado pelos críticos e público como insano ou tarado.
No decorrer de sua produção de quatro décadas como dramaturgo (sua última peça, A serpente, é de 1978), Nelson viu suas peças sendo aqui encenadas por importantes diretores e atores nas décadas de 60 e 70, a despeito de regime militar e todas as diversidades vividas naquele período. A partir da década de 1980, com a abertura política (e o autor já morto devido a uma insuficiência pulmonar) novas e provocantes releituras de seus textos vêm sendo feitas por conceituados encenadores, como Antunes Filho (Paraíso zona norte, colagem feita nos anos 1990 a partir de diversos textos de Nelson), Zé Celso Martinez Correia (Boca de Ouro em 2000), Marco Antônio Braz (diretor do grupo Círculo dos Comediantes, que desde a década de 1990 vem se dedicando a montagens do dramaturgo), para ficar só no âmbito paulistano.
 Enfim, essa é uma síntese possível da trajetória rodriguena. Com relação à reedição da Nova Fronteira, alguns comentários são oportunos. Essa edição contou com um design mais arrojado, com cada um dos quatro volumes tendo cores chamativas em suas contracapas e no letreiro que os distingue, conforme cada um dos gêneros que agregam as peças entre si. Essa aparência é um diferencial com relação à primeira edição, o que confere, portanto, ares de modernidade à atual, ainda que essa opção de cores não seja nada discreta e pode não agradar todos os gostos. No entanto, o grande problema a se lamentar na nova edição é a substituição dos prefácios clássicos feitos por Sábato Magaldi aos volumes anteriores da década de 80. Será que a Nova Fronteira quis enterrar Sábato por achá-lo pouco moderno, preferindo opiniões e análises de encenadores e estudiosos atuais da obra de Nelson? Tal opção foi uma grande tolice, que veio só empobrecer a edição. Embora se pode aproveitar bastante do que disseram os atuais resenhistas do teatro de Nelson, o estudo de Sábato é insuperável, sendo inclusive a divisão das peças feita por esse intelectual que ainda pauta a presente publicação. Desse modo, por que deixá-lo para trás?
Fruto de sua tese de doutorado sobre a dramaturgia de Nelson Rodrigues, as introduções de Sábato são retiradas desse trabalho acadêmico, em linguagem de fácil compreensão, sendo muito bem escrito. Já não se pode dizer o mesmo das esforçadas análises dos diretores escolhidos para introduzir Nelson agora. As análises não são amarradas entre si, o que poderia até ser justificado pela tentativa de mostrar um painel bastante plural de opiniões sobre as peças. No entanto, embora seja densa a análise de Luiz Arthur Nunes, diretor teatral carioca e acadêmico, que escreveu importante trabalho sobre a obra rodrigueana, em contraponto, as idéias defendidas por outro diretor carioca, Aderbal Freire-Filho são sofríveis, sendo um importante relato de um encenador, mas não um interpretação com o rigor que a obra de Nelson necessita. De maneira geral, completando a coleção, não são condenáveis o texto do diretor, sediado em São Paulo, Marco Antônio Braz, do Círculo dos Comediantes, nem o do diretor e editor jornalístico Antonio Guedes. No entanto, essa edição pretensamente moderna das peças de Nelson Rodrigues padece de uma análise coesa, que dê conta do todo, tornando justificável a divisão feita por Sábato, na qual também se baseia a presente edição. Ou seja, se os atuais editores acharam esse crítico pouco aproveitável para a “moderna” edição, deveriam também ter abolido a divisão da obra rodrigueana feita por ele. Isso tornaria a publicação um pouco mais coerente, ainda que não seja possível coerência entre quatro introduções tão pouco conexas entre si.
Sobre a nova edição, mais dois comentários são importantes. Primeiro, que a divisão proposta por Sábato não é estanque, como o próprio crítico admitiu, visto que elementos de uma das categorias está presente nas outras e assim, mutuamente. No entanto, como era necessário fazer algum tipo de divisão com o propósito da publicação, essa categorização, ainda que passível de simplificações, foi feita inclusive com a anuência do próprio Nelson. O segundo aspecto refere-se ao anexos trazidos em cada volume, que contêm fotos e textos publicados em programas de peça e na imprensa ao longo desses sessenta anos da vida teatral da obra de Nelson (desde 1943 com a montagem de Vestido de Noiva, até espetáculos feitos em 2003). São registros extremamente importantes e os textos, particularmente, enriquecem a compreensão das peças. No entanto, é lamentável que as fotos refiram-se às montagens feitas preferencialmente no eixo Rio/São Paulo, tendo sido usado, além de provavelmente arquivos pessoais, somente o arquivo da Funarte no Rio. Tal abordagem ajuda a reforçar o desequilíbrio da valorização e do incentivo cultural à manifestações de todas as regiões brasileiras. 
Por fim, uma descrição do conteúdo dos quatro volumes da presente edição. O volume 1, na cor rosa, traz as chamadas “Peças psicológicas”, que retratam os conflitos  entre os personagens de maneira aprofundada e complexa, sendo prefaciadas por Luiz Arthur Nunes. São as peças A mulher sem pecado (1941), Vestido de Noiva (1943), Valsa n.º 6 (1951), Viúva, porém honesta (1957) e Anti-Nelson Rodrigues (1973).
O volume 2, na cor verde, contém as “Peças míticas”, que expressam valores arquetípicos, inspirados na mitologia grega e nas teorias psicanalíticas e foram prefaciadas por Aderbal Freire-Filho. São elas: Álbum de família (1945), Anjo negro (1946), Dorotéia (1949) e Senhora dos Afogados (1947).
A última categorização das peças abarca a designação de “Tragédias cariocas”, que remontam às figuras e relações mitológicas, mas estão marcadamente identificadas no subúrbio e no submundo carioca. Assim, o volume 3, na cor azul, abarca as “Tragédias cariocas I”, com prefácio de Marco Antônio Braz, com as peças A falecida (1953), Perdoa-me por me traíres (1957), Os sete gatinhos (1958) e Boca de Ouro (1959). O derradeiro volume, o 4, é identificado pela cor laranja e intitulado de “Tragédias cariocas II”, tendo prefácio de Antonio Guedes, com as seguintes peças: A serpente (1978), O beijo no asfalto (1961), Toda nudez será castigada (1965) e Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária (1962).   

 


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