Melhores Crônicas de José Castello
José Castello, organização e seleção de Leyla Perrone Moisés
Global
304 páginas
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Quantas vezes não choramos ao ler uma tragédia ou um romance. Outras tantas, nos sentimos indignados - inclusive com o próprio autor - com ganas de saltar a pescoços. Muitas vezes, um sentimento de tranqüilidade, de leve arrogância com as sutilezas de um texto. Os sentimentos e as impressões são quase infinitos e a literatura tem esta incrível capacidade de mexer em nossos sentidos e alterar nossos estados de ânimo. Mas quantas vezes uma literatura nos faz rir?
Fazer rir é uma das mais difíceis artes, a ponto de mobilizar o interesse de pensadores desde a antiguidade até nossos dias, passando por gigantes como um Luigi Pirandello. E há mais; não somente rir de uma situação desconjuntada qualquer, de um tropeção ou de uma torta na cara, mas rir de uma situação construída ao longo de sons que somente se fazem no interior de nossas mentes.
Isto complica profundamente a arte de fazer rir com literatura. É só nos lembrarmos de quantos autores com esta capacidade podemos arrolar: Shakespeare, Moliére, Calvino - às vezes, Suassuna, e...
Vejamos bem, não se trata do caso de momentos de comicidade. Fonseca tem momentos hilários, Saramago também, até um autor menor como Nikos Kazantzakis. Mas quantos deles podem dizer que escreveram com o intento de fazer rir? É neste ponto que a coisa se complica.
Esta é uma das grandes, e primeiras, virtudes de José Castello. Como cronista, seu texto é excepcionalmente rápido, objetivo, bem escrito e incrivelmente engraçado. E dentro das temáticas que Castello emprega, rir não é pouca coisa. O autor é um verdadeiro homem livro, um literato não somente no sentido de alguém que lê e escreve, mas de alguém que incorpora a literatura como componente vivo, como parte essencial da vida e, portanto, do cotidiano.
Castello escreveu estas brevíssimas crônicas para jornais e, não resta dúvida, tornou-se um virtuose do gênero. Ao narrar seus encontros e desencontros com críticos literários bizarros, em concursos de literaturas no fantástico Baixo Cotolengo, ou um desentendimento com vizinhos dentro de um elevador, a leitura de um livro que provoca dores de cabeça, ou ainda homens que se tornam objetos e animais incorporando suas naturezas, Castello refaz o percurso cotidiano a partir dos referenciais da literatura e de sua própria experiência como escritor.
Como cronista, e que adota um campo de preocupações, Castello por vezes se repete, crônicas que parecem absolutamente iguais, ou com alterações cirúrgicas, mas isso não chega a comprometer uma vez que somente não se repetiu quem nunca escreveu.
É claro que a seleção da professora Leyla Perrone Moisés ajuda muito uma vez que o ofício da escrita não é somente feito de sucessos.
É um livro ágil, para ler e desanuviar os pensamentos com risos consistentes.