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Casos de amor, polícia, família e humor que apaixonam adolescentes e adultos

Claudinei Vieira

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Entre vida e morte: Casos de polícia
Fernando Bonassi

FTD
91 páginas
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Casos. Casos do interior. Casos de índio. Casos de amor. Casos de policia. De humor. De família. A coleção da FTD oferece o inicio de um verdadeiro caso de paixão arrebatada e arrebatadora pela literatura dirigida aos jovens leitores.

Só que para isso era necessário juntar de uma só vez qualidade, sensibilidade, beleza, projeto gráfico arrojado, conteúdo, textos que respeitassem a mentalidade e o nível de consciência destes mesmos jovens. O surpreendente, o espantoso, é que tudo isso foi concretizado.

Como? Primeiro, pelo quilate dos autores convidados. Heloisa Prieto, também organizadora da coleção, Maria Jose Silveira, Daniel Munduruku, Fernando Bonassi, Leo Cunha, Mirna Pinsky, todos já 'macacos velhos'no oficio, experimentados, consagrados. Em segundo lugar, houve completa e absoluta liberdade para cada um criar e escrever como lhe aprouvesse.

Não havia um sentido restrito de 'ter que escrever para adolescente'. Em minha conversa com Fernando Bonassi e Leo Cunha, sinto que insisti neste ponto e eles confirmam: nada do que escreveram do material entregue para Prieto, foi modificado, não houve mudança em uma linha, uma virgula. Houve várias, por certo, mas quando os escritores colocaram a mão na massa, a responsabilidade e o resultado do texto final foram deles. Sem dúvida, um puro caso de bom-senso da organizadora e da editora. Em terceiro lugar, de forma alguma de menor importância, o apuro e a beleza do trabalho gráfico, os ilustradores dialogando, se imiscuindo, se tornado parte visceral do texto, moldando-o, modificando-o, fazendo subir à superfície novos sentidos, novas significações.

Maria Jose Silveira escreveu "Uma cidade de carne e osso", para os "Casos do interior", e Daniel Munduruku, "Um estranho sonho do futuro", para "Casos de índio". Heloisa Prieto cuidou dos "Casos de amor" em "32". São trinta e duas fabulas de amor, recolhidas, resgatadas, reapresentadas, do folclore universal. Da cultura do povo indígena norte-americana creek, passando pelo egípcio, pelo japonês, armênio, persa, tantos outros, uma lenda celta, outra suíça, outra peruana...

As ilustrações de Elizabeth Tognato são, todas, de tirar o fôlego de tão belas, mas eu gostaria, preciso!, destacar a da história 20, uma lenda dos aborígines australianos, e a da 32, lenda mediterrânea, pela sua simplicidade, objetividade, e emoção tão concentradas. Puras obras de arte!

Mirna Pinsky faz um passeio em "A casa" nos seus "Casos de família", onde cada capítulo é um cômodo. O Quarto, A Área de Serviço, A Cozinha, A Sala de Jantar, evocando histórias, causos, da bisavó Leia, do vô Fredy, do tio Boris, da mãe Silva... A memória dos mais velhos serve como ponte, uma ligação para as descobertas da narradora e sua afirmação como adulta. Desta forma, a casa não é só um depositário de lembranças, quinquilharias, tal como o baú do Porão, mas um reduto querido, interno transbordante de vida, por conta da vida dos que por lá deixaram suas marcas.

(Tenho uma sincera e profunda inveja dos jovens que enveredarem pela literatura agora e se deparem com esta obra, pois eu me deliciei, viajei pela minha própria imaginação guiado pela mão segura e firme, docemente tranqüila de Mirna Pinsky. Fico assim imaginando o que deve ser isso centuplicado pela forca da juventude).

Andréa Vilela, muito inteligentemente, não tentou reproduzir os ambientes descritos em seu conjunto. Ela tomou alguns elementos, o binóculo, a janela, as camas, os gatos, o fonógrafo, e montou painéis. Seu olhar foca em pontos, pedaços, ilumina recantos, permitindo, portanto, que o leitor tenha uma boa idéia das imagens, sem interferir em sua interpretação própria, sem restringir sua imaginação.

Leo Cunha é professor universitário, jornalista, tradutor, mestre em ciências da Informação, e já escreveu mais de trinta livros, cuja "maioria tem a narrativa recheada de humor". Parece então nada mais natural do que convidá-lo a participar desta coleção. "Manual de desculpas esfarrapadas" reúne crônicas, histórias, casos que aconteceram com ele ou com pessoas que conhece ou são diretamente inventadas, mas plenamente plausíveis de acontecer com qualquer pessoa.

Alguns textos são "quase contos", como ele mesmo diz. Na prática, são ótimas desculpas para provocar risadas, divertir com um humor fascinante e descomprometido, sem nunca deixar de observar um lado um pouco mais sério ou um aspecto mais insidioso da sociedade. Característica autêntica de um verdadeiro humorista.

Um dos melhores exemplos é o texto que dá título ao livro. As 'desculpas esfarrapadas' são aquelas eternas razões para não se entregar o dever-de-casa para o professor. São notórias, famosas e impressionantemente constantes. Todos nós já usamos uma ou outra em nossas vidas. Alguns usaram todas elas. Leo Cunha distingue sete desculpas principais:

A CULPA É DE SÃO PEDRO: da chuva que encharcou o trabalho já pronto ou o vento que carregou as folhas; A CULPA É DOS OUTROS: clássica. A culpa foi do Joãozinho que não entregou a parte dele a tempo de poder fazer a minha; A CULPA É DO COMPUTADOR: "quem nunca ouviu essa frase, vai ouvir logo"; A CULPA É DO EXCESSO DE TRABALHO: isto é, a culpa é dos professores; EU NÃO SABIA QUE ERA PRA HOJE: uai, ninguém me avisou! EU NÃO ENTENDI DIREITO O QUE ERA PRA FAZER: será que dava para explicar de novo? MINHA AVÓ MORREU: "ou todas as variantes possíveis". Pai, mãe e irmãos são um pouco mais complicados, mas tios, primos e animais domésticos são sacrificados sem dó. E em casos extremos, ainda há o SUPERCOLIRIO: usado pelos oculistas e que deixa a vista embaçada durante uma semana! Mas este ainda não é o apogeu da crônica. É quando Leo Cunha compara estas desculpas com as declarações oficiais do então Presidente da Republica em 2001 tentando 'explicar' a crise da energia elétrica. Arrasador!

Quando nos encontramos, Cunha ainda não tinha visto o livro pronto. Tive então o prazer de vê-lo contemplar pela primeira vez o trabalho realizado por Daniel Kondo (que, 'por acaso', também é o responsável pelo projeto gráfico e as capas de toda a coleção).

Com Fernando Bonassi, autor de "Entre vida e a morte" para 'Casos de polícia', a relação com o ilustrador foi mais orgânica ainda. Eles não só se conhecem como já trabalharam juntos. Caeto ilustrou um livro de Bonassi (100 COISAS) e este participou do fanzine SOCIEDADE RADIOTATIVA. O resultado desta camaradagem transparece no trabalho desta coleção. (inclusive, estão com novos projetos conjuntos: uma História em Quadrinhos satirizando o Pequeno Príncipe: O Pequeno Fascista!).

Bonassi é contista, romancista, dramaturgo, cineasta, roteirista. Sua escrita é caracterizada por uma forte tradução da caótica vida contemporânea urbana, com todos seus conflitos, tragédias, violências, dores. Carregados, no entanto, por uma espécie de beleza poética bruta. Seus textos são marcados pela narrativa abrupta, seca, direta, provocativa, contundente. Sem hipocrisias. Seus contos incluídos neste volume são curtos, curtíssimos, e conseguem prender a atenção total. Como um soco no estômago.

É impressionante perceber, sentir, como Bonassi mantém a força de sua literatura, ao mesmo tempo em que se encaixa dentro do espírito desta coleção. Ou será o contrário? Não é nada difícil, por exemplo, imaginar que há poucos anos atrás teria sido impensável a publicação destes escritos em um projeto infanto-juvenil. O que mudou exatamente? Bonassi me respondeu que mudou foi a mentalidade das editoras, que estão cada vez mais abertas e começando a passar por cima da hipocrisia da sociedade. Passam a observar as reais necessidades culturais destes jovens, cujas vidas são há tempos marcadas pelo crescente aumento das dificuldades, violência etc.

A coleção da FTD vem muito bem a calhar para suprir estas necessidades.


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