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Sombras na claridade - Um instigante ano vivendo às margens do rio São Francisco

Gabriella Mancini

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Sombras na claridade
Cristina Porto
FTD
64 páginas
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Viagens são um prato cheio para escritores. Atentos às novas paisagens, culturas e personagens, vão enriquecendo sua literatura com histórias inventadas ou reais recolhidas em cada cantinho que descobrem, permitindo ao leitor viajar milhas e milhas sem sair do lugar.

Mesmo o leitor que vive na região abordada pelo escritor poderá se surpreender; afinal, o olhar que vem de fora costuma captar belezas já desvalorizadas pelo olhar acostumado dos moradores locais.

De agosto de 2001 a novembro de 2002, a escritora Cristina Porto percorreu regiões situadas ao longo do curso do rio São Francisco. Impressionada com as precárias condições de vida com as quais teve contato, Cristina escreveu os quatro livros da coleção "Caminhos do São Francisco", em que narra sua viagem sempre imprimindo ao texto forte preocupação social.

Misturou personagens fictícios e reais e buscou apresentar um Brasil desfavorecido, desconhecido de muitos leitores. Esta resenha irá abordar o livro "Sombras na claridade", que conta especificamente a viagem da jovem Jaciobá (nome indígena que significa o reflexo da lua cheia nas águas do rio) pelo norte de Minas Gerais. Como em muitas lendas indígenas, Jaciobá toma forma humana e vem à Terra para entender o que acontece ao velho Chico em seu curso.

Cristina encarregou a personagem de percorrer os caminhos antes desvendados pela autora. E para compor o núcleo ficcional do livro, criou a Dinda - estrela-cadente-madrinha de Jaciobá que a observa de longe -, e também a dona Clara, que Jaciobá conhece a caminho de São João das Missões e com quem passa a seguir viagem de carro.

Os objetivos da dona Clara se confundem com o da autora: "viajar pelo país para tentar fazer um retrato fiel da nossa realidade ". O discurso de Cristina Porto parece ter encontrado nesta personagem a melhor forma de se expressar. Ela representa a voz da autora, e Jaciobá os ouvidos atentos dos leitores.

Na cidade de São João das Missões, primeira parada de dona Clara e Jaciobá, visitam a reserva dos índios Xacriabá. O personagem real seu Emílio - ou Caipora Xacriabá - é apresentado ao leitor e ensina às companheiras sobre a triste história desta tribo, semelhante à de muitos outros índios brasileiros

A próxima cidade é Pai Pedro. Lá, as viajantes conhecem os bombons verdes, planta nativa da região, e se entristecem com a falta de recursos das famílias que moram naquela cidade, componente do chamado Polígono da Seca.

Antes de seguirem para a última cidade de destino, fazem uma parada em Montes Claros. Depois de terem contato com as "sombras" do trajeto do São Francisco, em Montes Claros conhecem a "claridade" e histórias menos sofridas passam a lhes fazer companhia.

Jaciobá e dona Clara visitam o Mercado Municipal, o Museu do Folclore e a Casa do Artesão. Mais dois personagens reais nos são apresentados: seu Tibúrcio, artista que faz belíssimas esculturas em madeira, e dona Cida, autora de bonecas tecidas com tanto cuidado, tão ricas em detalhes que o trabalho da artesã chega a emocionar.

Em Pirapora, conhecem a arte de fazer Carrancas e suas origens. Em seguida, Jaciobá encerra sua viagem "pedindo a Deus e a São Francisco que olhem para este nosso rio tão maltratado pelo homem!".

Ao longo do livro, é apresentado ao leitor o folclore de cada região: festas, culinária, medicina natural e o artesanato típico dos povos de Pirapora, São João das Missões e Pai Pedro. As coloridas e caleidoscópicas ilustrações do mineiro Luiz Maia - dispostas como em um mosaico - amenizam o sofrimento e a pobreza narrados pelas personagens.

Ao terminar a leitura - ou a viagem -, fica a vontade de conhecer os outros trechos deste emocionante trajeto e um desejo de preservação não apenas do rio São
Francisco, mas também do folclore das diferentes regiões brasileiras.

"Temos que preservar nossas tradições para as gerações futuras. É um dever, uma responsabilidade de todo cidadão".


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