Um certo dia, Gregor Samsa, depois de um sono agitado, acorda transformado em um enorme inseto. E agora? Como se levantar para trabalhar, retomar seu posto como caixeiro-viajante? Não que continuar dormindo não fosse agradável, ao contrário! Não precisaria acordar tão cedo todas as manhãs, agüentar a exploração do seu chefe, poderia apreciar melhor sua vida, em geral tão tacanha e mesquinha. Mas, como continuar a sustentar sua família, manter o sossego do seu pai aposentado, como garantir o futuro de sua irmã? Apesar de suas preocupações, no entanto, seu problema mais premente é como virar na cama e se colocar de pé.
Este é o começo de uma das histórias mais famosas da literatura universal. "A Metamorfose", de Kafka, é uma metáfora poderosa, tenebrosa e contundente, publicada em 1916, uma das únicas editadas ainda na vida do autor. Até hoje, mesmo tendo a humanidade passado pela Primeira e Segunda Guerras Mundiais, o colapso da União Soviética, chacinas étnicas de tantas espécies, e todas as outras milhões de outras mazelas as quais temos consciências ou não, esta novela continua mais atual do que nunca. Continua falando e tocando às pessoas que, de uma forma ou de outra, são colocadas à parte, à margem da sociedade, tornam-se párias, deixam de ser 'bons cidadãos' e passam a 'carregar' uma situação 'estranha', 'diferente', 'incômoda', e, portanto, passiveis de serem discriminados e perseguidos, não são mais 'gente de bem'.
Nada de novo, por certo. Em se tratando de "A Metamorfose", estas considerações são praticamente clichês. A novidade é traduzir este universo kafkaniano em termos gráficos. As dificuldades e os perigos inerentes a um tal empreendimento são bem consideráveis. Só para começar, consideremos a questão do "inseto". Em momento nenhum, é especificado qual seja. Kafka faz uma indicação aqui e ali, mostra um ou outro detalhe, de tal modo que fica claro que Gregor transformou-se em uma barata. No entanto, isso nunca é dito. Recurso simples, mas admiravelmente eficaz de aumento do suspense, do clima claustrofóbico e estranho, e do inusitado e típico senso de humor e ironia de Kafka. Ao mesmo tempo, não é somente uma questão de estilo, ou formalismo narrativo. Há um profundo sentido de desqualificação, de maior animalização, de alienação deste ser humano transformado no inseto-não-identificado. Ao suprimir a denominação 'barata', Kafka aumenta sua importância, chama a atenção muito mais do que se espalhasse 'barata' 'barata' 'barata' em todos parágrafos.
É compreensivo, portanto, que o foco aumente em se tratando de transformar o livro em um trabalho gráfico. 'Mostrar ou não mostrar a barata', poder-se-ia se dizer. A imagem é direta, objetiva, abrupta. Sem cuidados, torna-se chapada, absoluta, sem nuances. Peter Kuper não tem pruridos. A barata é mostrada desde o primeiro detalhe do primeiro quadro da primeira página. Atitude que, por si só, já demonstra o fato de Kuper ser norte-americano.
Com isso, não estou querendo qualificar (ou desqualificar) o trabalho de Peter Kuper. Sua interpretação da Metamorfose é admirável. Ele consegue re-criar o clima, o sufocamento, a lenta, porém inexorável, decadência do inseto-Gregor, até o momento em que sua simples presença na casa dos pais torna-se insustentável. A suprema ironia e o humor originais também estão presentes. Os desenhos correspondem à expectativa: são enxutos, diretos, densos. Embora aparentemente simples, são sempre carregados de significação. Ele realizou uma extensa pesquisa para sedimentar sua criação. Chegou a estudar, por exemplo, a arquitetura e a decoração de Praga na década de 1910 (lugar de nascimento de Kafka e onde se passa a história) para determinar qual seria a aparência do quarto de Samsa e a disposição dos móveis da casa.
Peter Kuper já possui uma extensa e respeitada carreira de artista gráfico quadrinista, mesmo sendo tão jovem (ele nasceu em 1958) e já enfrentou o desafio de adaptar Kafka outras vezes. Para quem o conhece somente das tiras Spy vs Spy da revista Mad, basta uma olhada no seu site www.peterkuper.com para aquilatar sua força.
No entanto, falta alguma coisa em sua Metamorfose. Sutileza, talvez (na qual, Kafka também era mestre, mesmo que não aparente); ou, quem sabe, eu simplesmente esteja expressando minha insatisfação na aparição tão gratuita e escancarada da barata, fechando assim uma idéia genial do autor, e simplificando ao extremo as possibilidades criativas. É um ótimo trabalho, mas fiquemos por aqui.
|