Alphonse Capone foi o gangster mais famoso da história, não há qualquer dúvida sobre isso. O cinema ajudou muito para consagrar sua fama, de alguma forma, direta ou indiretamente, quase todo filme sobre a máfia ou sobre Chicago nos anos 20 passam pela figura de Al Capone: O Poderoso Chefão (mesmo sendo inspirado pelo livro O Chefão), Os Intocáveis (baseado na história do agente Eliot Ness, perseguidor do mafioso), Scarface (não por acaso apelido de Capone), Cotton Club (que, apesar de falar sobre jazz e racismo, tem como ambiente o cabaré de propriedade do "Grandão", como o chamavam).
A história de Al Capone é um verdadeiro roteiro de cinema. Filho de uma família de imigrantes italianos (os Caponi) cresceu em uma área degradada da Nova Yorque dos anos de 1910, em meio às guerras entre as gangues italianas e irlandesas, num ambiente absolutamente miserável, com um poder público e uma polícia corruptos, com preconceito contra imigrantes. Certo escritor estadunidense disse a certa altura que um italiano que viveu nestas condições e não tenha enveredado pelo caminho da criminalidade ou era louco ou era santo. O fato é que desde criança Capone esteve envolvido coma criminalidade, fez carreira nela aproveitando-se do rápido processo de sucessão na chefia das gangues.
No começo dos anos de 1920 Capone se muda para Chicago para entrar na gangue de Johnny Torrio seu verdadeiro padrinho na grande criminalidade. Para quem pensa que o Rio de Janeiro é um caso extremo de falência das instituições e da corrupção geral poderia dar uma olhadela na velha Chicago, não sei se para consolo ou para saber o quanto dá para piorar.
Do prefeito ao dono da sorveteria toda a cidade estava ligada diretamente à máfia, o território urbano dividido entre grupos rivais, chacinas (como a do Dia de São Valentim na qual mataram sete indivíduos da máfia irlandesa) corriqueiras e uma fantástica marca de 250 assaltos em uma única semana em 1919 (atenção, estamos falando de 1919 em uma cidade de 2,7 milhões de habitantes, não de 2004 em uma cidade de 8 milhões de almas).
A situação somente piorou quando em 1920 começou a vigorar a lei Seca que, absurdamente, proibia a produção e comercialização, mas não o consumo de bebidas alcoólicas, uma equação propícia para a explosão da criminalidade. Foi com este comercio, além da extorsão, que Al Capone se transformou na personagem que conhecemos.
Os detalhes desta história, a violência, a criação de uma máfia elegante, da perseguição e queda, da prisão e desaparecimento de Al Capone, há que se ler para conhecer. Com um ritmo tão cinematográfico, ou mesmo ágil como um Fanzine, saber o final faz uma diferença brutal.
Sua trajetória é transcrita de modo absolutamente divertido no livro de Alan MacDonald, e igualmente divertidamente ilustrado por Philip Reeve. Embora o livrinho venha com a indicação de uma literatura juvenil penso que é capaz de agradar os gostos mais exigentes: é uma história interessante, bem contada, com linguagem ágil e que trabalha com o universo da gíria (sem ser caricatural ou jogar na vala comum a língua), bem ilustrada.
Um caminho interessante para uma primeira aproximação com o mundo da máfia e dos EUA e deste nos anos de 1920, que foi maravilhosamente narrado por escritores como Fitzgerald, Doctorov, dos Passos, mas com outras preocupações, e com outro perfil de leitores.
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