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Dez dias de cortiço

Rodrigo da Silva

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Dez dias de cortiço
Ivan Jaf
Ática
136 páginas
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Não tenho o hábito de ler literatura infanto-juvenil, talvez eu pense que não sou nem uma coisa nem outra e, portanto, não sou o público alvo dos textos. Se não sou o leitor indicado, a chance de haver qualquer espécie de incompreensão e - por conseqüência - injustiça é razoavelmente grande, assim evito lê-los, deixo para quem entende do assunto.

Mas toda regra tem uma exceção que lhe confirma. Estava na redação quando uma amiga responsável pela página de literatura me ofereceu o livreto: "Pega! Leva, é muito legal. É a história de um cara que decide reproduzir a experiência do Aluísio Azevedo de viver em um cortiço".

Não sei muito bem por quê, mas a Marcela me convenceu a ler o livro, embora seus "convencimentos" literários não sejam raros. Devo confessar que o livreto ficou lá, na minha estante, me olhando por um bom tempo antes que eu decidisse encará-lo. Bom, li. Gostei e me cabe dizer por quê.

Não conhecia a coleção da Ática chamada Descobrindo os Clássicos. A idéia é bem interessante: a editora convidou uma série de autores para fazerem re-leituras de clássicos da literatura de língua portuguesa. O Cortiço de Aluísio de Azevedo, Senhora e O Guarani de José de Alencar, O Ateneu de Raul Pompéia, O Alienista de Machado de Assis, Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto, Memórias de um sargento de milícias de Manuel Antônio de Almeida, O Crime do Padre Amaro de Eça de Queiroz, Os Lusíadas de Camões e Os Sertões de Euclides da Cunha. Não são adaptações infanto-juvenis, que muitas vezes ao invés de tornar as obras acessíveis a um público mais jovem simplesmente as destroem, são novas histórias que dialogam e apresentam os clássicos de forma original e divertida, convidando o leitor a conhecê-las. Os autores convidados também são escolhidos de modo criterioso: Moacyr Scliar, Ivan Jaf, Álvaro Cardoso Gomes, Luiz Antônio Aguiar.

Jaf optou por colocar no centro de sua narrativa um jornalista cinqüentão, Eduardo, que em plena crise de meia idade decide abandonar seu antigo emprego como diretor do caderno de automóveis de um grande jornal e tornar-se um jornalista freelancer, escrevendo matérias que lhe dessem prazer e que fossem socialmente significantes.

A decisão de Eduardo provoca uma crise familiar - que explicita o pensamento e o conservadorismo da classe média brasileira. Como matéria de estréia decide retomar um antigo projeto de juventude: estudar as formas de composição do escritor e jornalista Aluísio Azevedo, autor de O Mulato e O Cortiço. Para tal empreitada aluga um cubículo em um prédio de apartamentos decadente na cidade do Rio de Janeiro e se muda para lá por dez dias; de quebra arrasta seu filho Sérgio de dezesseis anos, um completo idiota social. A esperança do pai é que um tratamento de choque retire seu filho da inércia e da aridez intelectual que lhe toma. Não estou bem certo, como afirma Jaf, que se preocupar mais com o tênis importado do que com a miséria seja um traço habitual de jovens de classe média. Ao menos gostaria de crer o inverso, penso que seja mais uma questão de desinformação (por uma série de motivos) do que a simples indiferença. De qualquer modo o problema dá liga à história contada por Jaf.

O livro é bem gostoso de ler, fácil, simples, penso eu que apropriadíssimo para o que se propõe. Contudo existem duas precauções a se tomar antes de ler ou recomendar a leitura. Em primeiro lugar nenhuma adaptação, re-leitura ou obra "inspirada em" substituí o original. A leitura de Dez dias de cortiço jamais ocupará o lugar de O Cortiço. Sei que os autores sabem muito bem disso, e que também não é essa a proposta, o esclarecimento é sempre para os leitores. A segunda precaução diz respeito à questão temporal: as comparações, as atualizações são necessárias, mas não devemos nos enganar, as estruturas sociais mudam, a sociedade muda, a história é mudança, transformação, portanto o universo narrado por Aluísio de Azevedo é algo que pertence a si mesmo como fenômeno, e à posteridade como registro. A realidade atual não deve ser confundida com ele, pois não é idêntica, ainda que em alguns aspectos se aproxime, lembre, rememore. A própria similitude é prova de que pertencem a uma tradição humana de dois sentidos, o da permanência do passado na realidade contemporânea e o da memória, que possibilita estes links temporais.

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