Disse, não disse: crônicas João Emanuel Carneiro Nova Fronteira 142 páginas Compre
Não acreditava muito na lenda de que bons escritores podem fazer grandes porcarias comerciais. Sabe como é, Papai Noel, o coelhinho da Páscoa, anões, duendes, toda esta sorte de figuras mitológicas que povoam o imaginário infantil, às vezes nem tão infantil assim. É claro, havia Dias Gomes, um gênio que conseguia subverter a ordem da tele-dramaturgia e criar verdadeiras obras primas. Quem já leu Dias Gomes e assistiu Roque Santeiro, ou o filme O Pagador de Promessas, pode ter alguma idéia de como é difícil transitar entre gêneros e mídias tão diversas. Efetivamente poucos conseguem.
Atualmente, pelo menos no que posso avaliar, a televisão é povoada de aridez acéfala. Alias, isto não é nenhuma novidade há um bom tempo, como diria Nelson Rodrigues: "É óbvio ululante". Nada de roteiro, nada de interpretação, nada de proposta, nada de nada. Exatamente por isso não pensava poder existir vida inteligente escrevendo uma novela.
Então, recentemente, recebi um pequeno livro de crônicas (gosto mesmo de crônicas) de um escritor chamado João Emanuel Carneiro. Em geral, quando não conheço o autor, procuro dar uma passadela de olhos pela orelha do livro ou pelo release da editora. Não fiz isso desta vez, fui direto ao texto.
Que texto bom. Divertido, criativo, inteligente, rápido, enfim, uma boa mélangé do que Ítalo Calvino propôs como metas para a literatura do próximo milênio. Gostei muito, muito mesmo. Então fiquei curioso em saber de quem se tratava.
Ora minha surpresa, João Emanuel Carneiro está longe de ser um iniciante, é um veterano da literatura (não que seja idoso!). Entre seus trabalhos está o roteiro de Central do Brasil, de Orfeu, de O primeiro dia, todos bons filmes (se não geniais ao menos bons filmes). Além disso João Emanuel Carneiro é cronista da Veja Rio, para onde as crônicas que compõem o livro foram escritas. Mas não pára por aí, o cronista também escreveu...A cor do pecado. Então eu choquei.
Não pelo aspecto econômico da coisa. É claro escrever uma novela para a Globo deve dar muito mais grana do que vender livros, isto é inegável (salvo, talvez, casos raríssimos). Afinal de contas todo mundo tem que no final do mês pagar o leite da prole, comprar o feijão e o arroz, ou o camembert (cada um com seus gastos e suas taras), mas de qualquer forma ninguém neste mundo - salvo os franciscanos - faz voto de pobreza (os que o são não é por opção, certamente). Logo não foi isso que me chamou a tenção.
O que me impressionou foi exatamente o paradoxo que se estabeleceu em minha mente: como um cara capaz de escrever crônicas tão boas é capaz de produzir A cor do pecado? Não que a novela fosse especialmente ruim, é tão ruim quanto qualquer outra, Global ou não. Ocorre que eu imaginava que um bom escritor seria bom em qualquer situação, ledo engano.
Então me soprou às ventanas o velho comunicólogo canadense. Dizia McLuhan: "O meio é a mensagem". Em grande parte é isso, o veículo através do qual você veicula qualquer mensagem já a é. Não há como existir uma incoerência profunda entre um e outro, eles andam juntos, dialogam, se transformam mutuamente. Então mesmo que João Emanuel Carneiro seja um excelente escritor à medida que o veículo de sua mensagem é a tele-novela, não há como se afastar radicalmente de seu aspecto massificante.
O livro é divertido. Existe um quê de non-sense no ar, uma criativa construção de situações que seguem o tempo todo quebrando com a lógica formal, com as expectativas, com o que o mundo normal das relações sociais pode oferecer. Justamente por isso não sei bem ao certo se tais textos deveriam ser classificados como crônicas ou como breves contos. Embora tratem do cotidiano, característica de ouro da crônica (como o próprio nome denuncia o tempo, cronos, rege esta forma de literatura), é um cotidiano fantástico, móvel ao extremo e surpreendente. Contudo, se o que nos interessa é a agradabilidade do texto, então tanto faz se é uma crônica ou um breve conto, é um texto divertido e interessante.
Talvez seja hora de começar a acreditar em duendes, ou mandar uma cartinha pro Papai Noel.