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Os muitos conflitos humanos

Rodrigo da Silva

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Gente em conflito
MACHADO, ANTONIO ALCANTARA
Ática
136 páginas
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Nem todo conflito humano acaba em sopapo. Estes, talvez, sejam os mais óbvios, mas, certamente, não são os únicos.

Neste volume da coleção Para gostar de ler estão reunidos contos de inúmeros autores que abordam as diversas faces dos conflitos humanos, desde os conflitos entre homens e mulheres (casados ou não) até os conflitos do sub-mundo, da marginalidade. E a seleção não poderia ser mais adequada: há na seleção o mundo sufocante da literatura de Franz Kafka, o bas-fond de João Antônio, Marçal Aquino, a marginalidade em Ivan Ângelo, o terror passional em Lygia Fagundes Telles, e ainda Fernando Sabino, Menalton Braff, Dalton Trevisan, Luiz Vilela, Alcântara Machado, Moacyr Scliar, Machado de Assis, Wander Piroli, Maupassant e Fernando Sabino.

Dois aspectos, penso, que sejam particularmente interessantes: o da proposta da coleção e das temporalidades envolvidas.

Aprender a ler é um processo complexo, a leitura, a escrita, são aspectos culturais do homem, não é uma habilidade natural, portanto trata-se verdadeiramente a aprender a gostar de ler. A leitura é um constante desafio, começamos com coisas mais fáceis, mais próximas e a partir de um certo momento começa a se desafiar os escritores, a penetrar em novos contextos, em novas estéticas, propostas, estilos. Mas é necessário começar a gostar. Tantas vezes digo que se a academia se preocupasse mais em escrever bem seria menos encastelada e mais compreendida do que é. O desprezo pela boa escrita, e conseqüentemente pelo leitor, desemboca inevitavelmente na incomunicabilidade. Portanto sempre será insuficiente escrever o quanto coleções como Para gostar de ler são fundamentais na criação de uma cultura de leitores.

O segundo aspecto reside justamente na seleção dos autores. Quando se transita pelo tempo duas dimensões podem ser observadas: a transformação das abordagens dos temas, e o rompimento da idéia de que tudo que é antigo é velho, de que somos a ponta de processo linear e acumulativo de progresso. Ambas posições levam ao rompimento do preconceito com a história e com o passado.

Quando Machado de Assis figura ao lado de Marçal Aquino a idéia de que o passado existe, de que algo ficou para trás, se dissipa e possibilita que o autor reconheça um no outro, que traga Machado de Assim para nosso tempo, com novas leituras, com novas percepções dentro de um outro momento histórico e, ao mesmo tempo, possibilita que perceba-se em Aquino a trajetória da escrita de uma cultura, que o veja como tributário (maior ou menor) daquilo que se já produziu. Trabalha-se com o tempo, com a transformação, ou seja, com a história, ainda que de modo velado, subterrâneo. Penso que todos ganham. Somente gostaria de saber de quem foi a seleção dos contos para aqui poder lhe dar os merecidos créditos, de qualquer modo eles ai seguem.

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