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"De Primeira Viagem": "Fazer ou Morrer" - histórias de vinte anos

Vanessa Barbara

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"De Primeira Viagem"
Heloisa Prieto
Cia. das Letras
152 páginas
R$28,50
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Mas vocês aqui, todos vocês que já conseguiram alguma coisa na vida, dinheiro, amor e tudo o que se pode obter em terra firme, contem para mim: não foi aquela a melhor época, a época em que éramos jovens no mar? Jovens e sem nada, no mar que não dá nada a não ser bordoadas e, às vezes, a oportunidade de pôr à prova a sua força, só isso... Não é daquela época que todos vocês sentem saudades?

Joseph Conrad é o ponto de partida para a coletânea "De Primeira Viagem" (Cia. das Letras, 172 páginas), que reúne histórias sobre os vinte anos e relatos de iniciação.

"Juventude", de Conrad, é narrado em uma mesa de bar por um marinheiro de meia-idade. A história trata da primeira viagem de Marlow, o narrador, ao Oriente (mais especificamente Bangkok), ocorrida vinte e dois anos antes. É também a primeira experiência do jovem rapaz como segundo imediato do navio - um oficial de verdade! -, numa viagem cheia de tormentas que culminam com o incêndio e naufrágio do Judea. Na embarcação, um brasão com o lema "Fazer ou Morrer", frase que define um período da vida em que o importante é esvaziar a garrafa e jogar-se ao mar, tentando alcançar a terra firme sozinho.

Além de duas iluminuras de Rimbaud, há outros sete contos que abordam diferentes tipos de iniciação, inspirados na experiência de cada autor - Tony Belotto narra a primeira reportagem de um estagiário na busca de um antigo ídolo de rock; Fernando Bonassi fala sobre um sujeito que enfrenta a polícia em uma madrugada na metrópole; Moacyr Scliar cria um jovem narrador mais ajuizado que o pai (este, sem profissão definida, decide firmar um pacto com o demônio para ganhar dinheiro fácil); Paulo Bloise justifica sua opção pela psiquiatria, após ter vislumbrado a loucura nos olhos da mulher amada.

Ana Miranda escolhe o primeiro amor como tema, apresentando ao leitor uma menina que se apaixona por um desconhecido jogador de basquete. A questão não era nem o garoto, mas o que acontecia dentro da narradora - o que ele tinha feito acontecer com ela, como se tivesse a empurrado num precipício. Assim ela passava as noites olhando para o amado dentro da memória, sentindo a maior vontade de viver, comendo ovo cru sem ter nojo e indo à escola tonta de paixão.

Eu via o jogador no asfalto que eu pisava, via o jogador no bico do meu sapato no portão da escola no tronco da árvore na saia xadrez das meninas no rosto dos meninos (...) ele me chamava para fugir no seu barco à vela ele tinha um avião e pilotava e jogava milhares de rosas sobre a minha casa ele batia na janela do meu quarto ele me beijava os lábios ele me beijava os lábios, ele me levava ao cinema e segurava a minha mão (...) me levava a voar sobre os telhados, passei dias e dias assim pensando nele sem um instante de descanso, achei que estava ficando louca mas adorava me sentir assim, sem prestar atenção nas aulas, sentindo beijos nos meus lábios e calor no meu corpo cheguei a ter febre ele não saía de minha cabeça.

Um dos mais belos contos, no entanto, é do amazonense Milton Hatoum. Em "Varandas da Eva", ele narra a primeira relação amorosa de um garoto, com uma mulher que "fazia coisas que davam ciúme, carícias que não se esquecem". Uma moça sem nome, de olhos cor de fogo e a voz meiga, que nunca mais foi vista. Restou ao protagonista caminhar sob a trilha de folhas úmidas, relembrar por alguns instantes e não voltar nunca mais.

Afinal de contas, alcançou-se a terra firme, e o que restou dos vinte anos foram dias de tormenta no Mar da China, passados em um barquinho aberto com todo terror, romance e fascinação que se pode recordar.

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