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Hell's Angels : Sexo, drogas e muita gasolina



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Hell's Angels
Hunter S. Thompson
Harper USA
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Se a intenção de Hunter S. Thompson era deixar o leitor com o estômago virado, certamente conseguiu. Em Hell's Angels - Medo e delírio sobre duas rodas, o jornalista foi a fundo no ofício e, durante um ano, conviveu com a gangue mais temida da década de 70. Vestidos em seus trajes de guerra - Levi's suja e jaqueta com mangas cortadas - os Hell's Angels - motociclistas enlouquecidos que viviam à base de cerveja e LSD - atormentaram cidades inteiras dos Estados Unidos, deixaram a população local em pânico, viraram "pop star" da imprensa e, conseqüentemente, se tornaram um mito; quase uma lenda, eu diria.

Cheirando a sebo humano, os motoqueiros "fora da lei" causavam tumulto onde passavam. Adeptos ao sexo sem compromisso, os "fiés" integrantes da gangue viviam sob julgamento. A acusação? Estupro. E a maneira como Thompson descreve as cenas de sexo é de embrulhar as vísceras. Nada passa batido. E a mistura de suor e sêmen é relatada com frieza durante os 22 capítulos do livro.

Completamente apaixonados por motos, os Hell's Angels viviam em função de suas Harley Davidson. Não que tivessem dinheiro suficiente para comprá-las. Mas como ser avesso aos padrões era - quase - uma necessidade, os Anjos do Inferno montavam planos incríveis e roubavam motos e peças sem encontrar problemas consideráveis. Durante todo o tempo que Thompson acompanhou a gangue, o que mais lhe preocupou foi a possibilidade de ser visto como um intruso pelo grupo. E isso poderia acontecer a qualquer momento. Além de bêbados, os Hell's Angels eram violentos e não levavam desaforo para casa. As marcas de sangue seco eram visíveis em suas jaquetas e serviam como medalhas. Quanto mais suja era sua roupa, maior o respeito do grupo para com o integrante.

Como um antropólogo, Dr Hunter estudou, pesquisou, conheceu e fez parte dessa sociedade imaginária criada pela gangue. Lá, cada um tinha um papel e exercia a função com prazer e muita disciplina.

A devoção de alguns jovens chegava a impressionar. Garotas, rapazes, todos abriam mão do que fosse para ser mais um membro do Hell's Angels. Algumas meninas, por exemplo, deixavam a casa dos pais e acompanhavam a gangue em suas jornadas. Conhecidas como "mamas", as jovens eram tratadas como prostitutas e serviam como um mero objeto sexual.

O idealismo e a movimentação cultural da década de 70 influenciou - e muito - na formação de grupos como os Hell's Angels. O lema da contracultura deu crédito a essas gangues; participar de um grupo era sinônimo de status.

Embora o assunto abordado por Thompson seja peculiar e interessante, ele pecou em alguns trechos de seu relato. Em 3 ou 4 capítulos, por exemplo, o jornalista é extremamente detalhista, característica que torna o texto cansativo, repetitivo e sem o lirismo (tão almejado). Em um dos trechos, Dr Hunter explica, minuciosamente, cada peça de uma moto. Espetacular para motociclistas e mecânicos, mas totalmente inútil para o leitor comum.

Mas o mais importante da obra de Thompson é o lugar onde se enquadra no jornalismo moderno. Eloqüente e cheio de realismo, os textos do jornalista causam impacto pela ousadia e falta de trato. É tudo muito cru em seu universo. O autor / personagem fala de todo e qualquer assunto, sem censura, e sem nenhuma preocupação em chocar o leitor. Para Thompson não existem limites; drogas, estupros, violência, sujeira e podridão. Tudo é válido no mundo do Dr. Hunter.

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