Você me mata, mãe gentil
João Ubaldo Ribeiro
Nova Fronteira
256 páginas
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João Ubaldo Ribeiro é um escritor freudiano. Freudiano dos bons, daqueles que não negam, que assumem seu caráter. Como bom brasileiro, não se deixaria curvar pelos rigores das academias de psiquiatria, pois, embora bom freudiano, não o é de modo convencional. Já dizia a sabedoria popular, estampada em braços de brutamontes pelo Brasil, que "amor só de mãe".
E o escritor baiano nunca negou seu amor pela mãe. É claro, nada sei sobre a relação de João Ubaldo Ribeiro com sua mãezinha, Sra. Ribeiro. Contudo, sobre sua outra mãe - a gentil - muito é público e notório. Amante intenso e inconformado, João Ubaldo escreve seus textos empregando suas melhores habilidades: a escrita irônica, direta, solta e divertida, abrindo as entranhas das nossas mazelas e as expondo publicamente.
Mas há um detalhe na escrita de João Ubaldo: ele não é um derrotista, nem um pessimista que se rende aos pitacos alheios, como em toda relação familiar da "nossa mãe gentil" somente nós podemos falar mal. Afinal de contas, quem é que vive com ela?
Neste livro estão recolhidas algumas das melhores crônicas escritas por João Ubaldo Ribeiro para o jornal O Globo do Rio de Janeiro entre 1999 e 2004. Nelas, o dia-a-dia de nossa querida mãezinha coletiva (olha lá, hein! Como diria Henfil: pelamordedeus! Não havemos de nos esquecer que a "mãe gentil" está lá no nosso tão complexo hino nacional que ultimamente vem sendo vítima de uma injusta campanha modernizadora) aparece como objeto central.
Quem não se lembra dos famigerados kits de primeiros socorros que eram (são?) obrigatórios em todos os veículos automotores (mobilete conta?)? Pois é, João Ubaldo não deixou barato e estampou lá em sua crônica dominical n´O Globo. Ou o FEBEAPA que se passou em 2000 (para os leigos, FEBEAPA: sigla do Festival de Besteiras que Assolam o País, criado por Stanislaw Ponte Preta, também conhecido como Sérgio Porto) com o surto "Brasil 500 anos"?
João Ubaldo, como escritor muito bem formado e informado que é, antecipou-se aos historiadores - ou talvez os tenha substituído já que muitos se inscreveram no FEBEAPA - ao denunciar a falácia do 500 anos. 500 anos de quê? A colonização não começou em 1500. O Brasil foi colônia somente até o início do século XIX. Após 1822 tornou-se independente, porém a formação do Estado Nacional se estenderia muito além. Logo estávamos comemorando 500 anos do quê? De território? Mas ele já não estava aqui? De ocupação? Mas ele já não estava ocupado? Lá estava João Ubaldo - em 2000, não em 1500 - para provocar a escumalha - como diria o saudoso Paulo Francis - que comanda esta mãezinha.
Tratando da Olimpíada, então João Ubaldo é impagável. Pensando em Atenas 2004 ficava lendo sua crônica sobre os jogos que ocorreram em Sidney em 2000 e chorava de rir, não somente sobre o patético do passado, mas sobre o patético do futuro que João Ubaldo - lembrando a permanência de certas situações - antecipava.
Está certo João Ubaldo Ribeiro, que se recusou a ir a FLIP deste ano. Me desculpem os demais, mas ele é um escritor até o último fio de cabelo - dos não muitos que lhe restam -, até o tutano dos ossos, não precisa ficar disputando espaço com editoras famintas, escritores obscuros ou de ocasião. E isto até que um dia a mãe gentil mate João Ubaldo, de satisfação ou indignação.