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O observador cotidiano

Rodrigo da Silva

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Melhores crônicas de Ignacio de Loyola Brandão
Inácio de Loyola Brandão

Global
416 páginas
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"Eu não estou interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais. A minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais."

Quando escutei, recentemente, estes versos de uma canção antiga do Belchior, imaginei imediatamente que seria uma perfeita epígrafe às crônicas e seus cronistas. Cada dia que passa me interesso mais pelo banal, pelo cotidiano, pelos homens sem qualidade, por aquilo que é desprezado pelos catadores de relíquias da humanidade, que selecionam seus temas e seus personagens quase como quem busca uma bizarria qualquer. Por isso, a cada dia que passa, me interesso mais pela crônica e pela personalidade, pelas técnicas, dos cronistas.

Não estamos tratando, certamente, de simples artesãos das palavras, de técnicas para transformar o comum em ouro, não se trata dessa alquimia, mas de outras. Ora, não seria no pontual, no instantâneo e irreprodutível que a humanidade escolheria para construir a história, não seria naqueles que lembramos os nomes que se depositaria tarefa tão exaustiva, nem fardo tão pesado.

É no homem comum, nos milhões, nos bilhões - no um, cem mil e ninguém de Pirandello - que está a enorme mina a se descobrir. O cotidiano é, para quem estuda a humanidade, um gigantesco atrativo, tão desconhecido, tão complexo e tão fascinante quanto os recantos mais distantes do universo. É o nosso buraco negro. Por isso escrever uma crônica é a incursão mais arriscada, mais ousada que há neste território, e cada forma literária faz incursões em um determinado terreno da existência.

A crônica, como gênero literário, é - em geral - considerada algo menor, de ocasião, passageira e fadada à efemeridade. Penso que é justamente neste seu aspecto que a crônica negue sua pequenez. Nada mantém seu significado ao arrepio do tempo, nada possui um sentido fora de sua cultura, não existem mensagens naturalmente universais; portanto não existe qualquer espécie de literatura que mantenha seu significado para além de seu tempo, nunca é demais lembrar as recolocações que são feitas a partir de obras que foram compostas dentro de outros instantes, dentro de outros complexos culturais. A Ilíada possui um sentido diverso para nós do que teve para os renascentistas e, mais ainda, para os próprios homens do mundo cultural grego de 2500 atrás. Dostoievski, Bocaccio, Dante, Suetônio, Tomás de Aquino, Stendhal, Dickens, cada qual em seu tempo, cada qual através do tempo, sentidos múltiplos, leituras infinitas, apropriações incontáveis. O sonho da literatura eterna, de um texto indelével, é eminentemente romântico e, por si mesmo, temporal, marcado, delimitado.

A crônica, tão temporal quanto as demais literaturas, possui uma peculiaridade fascinante que é a da observação do trivial, do que - em geral - somente aparece nas demais literaturas para enquadrar os grandes temas, problemas, situações, personagens. A crônica é o mais próximo que a literatura pode chegar de uma foto instantânea, de algo no qual o valorizado não exatamente o grandioso, mas o ritmo do cotidiano, aquilo que não parece ser digno de um tratamento mais acurado, de uma pose, de uma escultura.

Contudo, é nela que estão guardados os elementos que preenchem verdadeiramente a história, ou alguém realmente imagina que qualquer ser humano - por mais célebre ou poderoso que possa ser - vive de "grandes instantes"? Certamente que não; são de pequenas ações que a história é composta, de micro ações que por vezes catalisam-se em algo maior. Por isso, na captação do que parece e somente parece ser efêmero, que penso que a crônica seja tão importante.

Inácio de Loyola Brandão é um excelente exemplo desta espécie de incursão e de uma especialidade de alquimia. Cronista da megalópole contemporânea, atento aos movimentos das cidades e das pessoas consegue operar a especialidade alquímica da revelação, não da transmutação.

As coisas estão lá, no casual, mas é necessário um tratamento adequado para que elas saiam de seu casulo e mostrem mais do que o simplesmente pitoresco, do que o meramente curioso. Inácio de Loyola Brandão escreve incrivelmente bem, de forma leve, livre, despretensiosa o que revela a segurança do escritor, dadas as suas décadas de ofício.

Como pessoa arguta, atenta, consegue captar em sua objetiva tanto os movimentos de adolescentes às vésperas de uma avaliação, quanto as imagens de sua cidade natal Araraquara, amplia o foco e capta São Paulo, hoje e ontem, ou o ontem hoje.

Trabalha com a memória, sua e coletiva, rememora, ironiza e novamente revolve o cotidiano. Um belíssimo acréscimo à coleção de melhores crônicas publicada pela Global.


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