Amoreco
Edson Gabriel Garcia
Cortez
72 páginas
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O primeiro beijo, a primeira paixão, a vontade imensa de se declarar e a timidez ainda maior que nos impede de agir, o primeiro dia de aula numa nova escola, o primeiro triângulo amoroso: essas experiências que cercam meninos e meninas em fase de descoberta do amor são a matéria-prima do livro "Amoreco - pequenas histórias para meninos e meninas iniciantes nas coisas do amor", de Edson Gabriel Garcia.
É difícil não se identificar com as oito pequenas histórias narradas nessa obra, todas tendo como cenário o colégio e suas imediações.
O livro parece um diário - crônicas do dia-a-dia - não apenas pelos temas e pelo ar confessional que assume, mas também por sua constituição: pequeno, delicado, repleto de desenhos feitos com traços arredondados e ar juvenil.
Confissões de timidez, saudade, insegurança, troca de olhares que congelam, bilhetinhos secretos e paixão platônica preenchem suas páginas, pontuadas com sensibilidade pelo autor. Não se encontram em "Amoreco" grandes peripécias e aventuras de uma turma de colégio, mas uma narrativa intimista que valoriza os pequenos e simples acontecimentos do dia-a-dia, contados com delicadeza, sem pieguice.
Exemplo disto é o conto "A chuva", em que um menino divide um guarda-chuva com a garota dos seus sonhos e a partir desse dia passa a adorar o antes odiado temporal.
Um dos contos mais belos de "Amoreco" é intitulado "Saudade". Narra a amizade entre Marcelo e Ritinha, que vivem juntos o primeiro amor de suas vidas. Mas um dia Ritinha tem que mudar de cidade para acompanhar o trabalho do pai, enchendo de tristeza o coração de Marcelo.
O final do conto inclui uma bela definição de Saudade:
"(Ritinha quando partiu) Deixou um vazio na carteira escolar e um buraco grande no coração dele. A carteira escolar alguém usaria para preencher o vazio. O buraco no coração do Marcelo era um vazio maior, um vazio que às vezes apertava e às vezes doía. Outras vezes era um buraco cheio de lembranças gostosas, todas elas com a presença de Ritinha."
O texto "Coisas que a gente nunca vai esquecer" traz trechos do diário de Sílvia, que conta em detalhes como foi seu primeiro beijo. Muito bem planejado, por vezes adiado, no fim delicioso, embora completamente distinto do que imaginara.
"Como seria, onde seria? Seria à noite? Numa festa bonita? Andando na praia ou passeando pelo campo em uma fazenda modelo? Estaríamos com roupas novas ou trajes esportivos?"
E as dúvidas não paravam por aí."Onde colocar a língua na hora do beijo?"
A maneira com que Edson Gabriel construiu a relação da personagem Sílvia com seu diário - feita de carinho, intimidade e cumplicidade - é tão verossímil que nos leva a questionar se ele não andou lendo, escondido por aí, alguns diários de meninas. Todos que já cultivaram diários ou agendas (não aquelas com anotações de compromissos, mas de acontecimentos importantíssimos como a primeira vez que o seu amor platônico falou com você).
O olhar do autor Edson Gabriel sobre cenas da infância e pré-adolescência mescla saudosismo e modernidade, em linguagem contemporânea e por vezes feminina.
A obra se encerra com um emocionante diálogo entre pai-autor (Edson Gabriel Garcia) e filho-ilustrador (Kiko Garcia) desse livro tocante, que vai mexer com a memória e o coração dos leitores.