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Falo de Mulher

Claudinei Vieira

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Falo de Mulher
Ivana Arruda Leite
Ateliê Editorial
96 páginas
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Só pelo título este livro já merece destaque. Falo de Mulher! Dá margem a inúmeras possibilidades semânticas e interpretativas. É um trocadilho, uma gozação, uma reflexão, um pensamento, um posicionamento. Parece bastante para um simples titulo, mas os textos, os contos, as narrativas curtas (seja lá qual for o nome que se dê) proporcionam uma continuidade vigorosa.

"Descoberta" e arregimentada por Marcelino Freire, Ivana Arruda Leite é o portentoso lado feminino da Geração 90, tal como anotado pelo Nelson de Oliveira. Nos "Manuscritos de Computador" ela ainda não estava presente, mas já tinha lançado "Histórias da Mulher do Fim do Século" em 1997, além de livros de poesia. Ivana comparece na antologia posterior, "Os Transgressores", e participa plenamente na celebração da literatura contemporânea brasileira radicada em São Paulo: a revista PS: SP. E lançou em 2003 um livro infanto-juvenil, baseado na figura de sua própria sobrinha.

Em "Falo de Mulher", Ivana se multiplica, se diversifica, se amplia. Esta mulher é várias, todas reais e marcantes. É Cinara e Cibele, as irmãs cada qual com sua cabeça. E, literalmente, o mesmo corpo. Ou Leocádia, a leoa atacada por crises de depressão. Ou Isolda, preocupada com a preocupação do marido, Tristão, com a conta do cabeleireiro. Ou a gorda Adélia, que salva sua filha do complexo fazendo com que vá morar com o ex-marido. Ela é as quatro putas Dolores. E por aí vai.

Cada momento é um flash em um poço escuro. Cada conto é curto, duro, direto e verdadeiro. E todos conduzem a becos sem saída, melancólicos, sufocantes. Ivana representa, apresenta e analisa o trágico cotidiano, ainda mais dramático e triste por ser banal, comum, trivial, por mais grotesco e surreal que se mostre.

"Gosto de livros tristes, onde tudo acaba mal. Meninas órfãs que choram à beira do fogão, madrastas malvadas que trancam meninas órfãs no quarto escuro, professoras que fecham a tampa do piano nos frágeis ossinhos da menina quando ela erra o dó-ré-mi, mocinhas sonhadoras que não se casam, solteironas que metem a boca no veneno e não conseguem se matar".

Sendo assim, é preciso cuidado ao caminhar por estas páginas. Muitas podem machucar.
Nem todas funcionam. Há alguns momentos frouxos. Mas que de forma alguma comprometem o conjunto. Porque quando Ivana acerta... A sensação é que somos fisgados e nosso fígado está saindo pela boca.

E há momentos luminosos, de um humor bárbaro mesmo que melancólico: "Eu e a Marieta Severo não temos tempo para solidão. Ela foi casada com Chico Buarque, eu com João Teodoro. Ambos nos deram muito trabalho". Ou a triste vida de Doroti, a mulher-sereia que era metade mulher, metade peixe e que vivia mergulhada em profundas crises de identidade.

Se Ivana de Arruda Leite não existisse, precisaria ser inventada o mais rápido possível.

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