A Cruz e o Crescente: Cristianismo e Islã, de Maomé à Reforma
Richard Fletcher
Nova Fronteira
190 páginas
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Gosto do historiador inglês Richard Fletcher. Em geral, aqui no Brasil, existe uma hegemonia pouco salutar da historiografia francesa sobre a medievalidade: Jacques Le Goff, George Duby, Le Roy Ladurie, Arries... É claro, não é somente por não ser francês que gosto de Fletcher, da mesma forma como não desgosto dos franceses. O problema é somente a manutenção de uma única perspectiva de todo um campo de preocupações, de problemas históricos. Fletcher é competente: conheci seu trabalho há aproximadamente dois anos, quando se publicou por estas bandas um trabalho primoroso seu, "Em busca de El Cid". Belíssimo trabalho sobre a obscura identidade de Rodrigo Dias de Bivar e, de passagem, sobre a medievalidade na Península Ibérica.
O livrinho que agora temos em mãos é igualmente competente, embora bastante sintético. "A Cruz e o Crescente" tem um pouco o ar de um ensaio sobre as relações entre estes dois blocos culturais - o islamismo e o cristianismo - ao longo de aproximadamente 1500 anos. Pretensioso? Sim, como parte significativa dos ensaios. Condensar tanto tempo, tantas variantes e tantos detalhes em 190 páginas parece ser uma obra infactível. Mas me arrisco a dizer que, para os que pouco ou nada conhecem sobre o assunto, é um bom primeiro passo. Pesa um bom argumento a favor de Fletcher e de seu livro: sua especialização em relações árabe-cristãs na Península Ibérica. Como conhecedor do problema, o historiador inglês escapa com distinção e louvor dos preconceitos e lugares comuns que pesam sobre o tema. Contudo, nem tudo são flores.
Pergunto-me sobre os motivos que levam ao aparecimento de um livro de tal feição no exato momento em que uma crise cultural se pronuncia e toma dimensões preocupantes, sobretudo para o bloco ocidental cristão.
Jamais podemos nos esquecer que o escritor tem como um de seus objetivos ganhar com o suor de seu rosto - e com suas linhas - seu pão de cada dia, e algumas vezes coisas a mais. Também não podemos esquecer que vender livros é um negócio, e que pode ser mais ou menos legítimo, dadas as circunstâncias. Por fim, não podemos esquecer que, na Inglaterra, as condições que cercam o mercado editorial e o tema do livro são bastante específicas. Ora, seria tolo não julgarmos a imensa possibilidade de um oportunismo até certo ponto mórbido com relação ao problema. Fletcher, como que pressentindo a desconfiança, adianta-se a esclarecer que o livro estava escrito há anos. Pode ser. Pesa também a seu favor o fato de seu trabalho não ser sensacionalista, nem obscuro. Fletcher é um franco admirador da cultura árabe, ao menos em algumas de suas manifestações. Poderíamos ainda lembrar que interesse mercadológico e seriedade acadêmica não são elementos excludentes, podem sim conviver.
Seja lá como for, reafirmo minha posição inicial. É um bom livro para os que querem compreender, a partir de uma perspectiva histórica, os choques entre cristianismo e islamismo. Introdutório, contudo eficiente.