Melhores crônicas de Marques Rebelo
Marques Rebelo, seleção e prefácio de Renato Cordeiro Gomes
Global Editora
288 páginas
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Tudo bem, reconheço minha ignorância. Não conhecia Marques Rebelo, não sabia sequer que havia existido. Conhecia de orelhada sua obra mais famosa - A estrela sobe - mas também não a lera, como ainda não li. Prometi a mim mesmo - depois de ler suas crônicas - que assim que eu tiver um tempinho vou ler A estrela sobe, pois se ele foi escritor competente de romances como foi de crônicas o livro deve ser uma beleza.
Agora vamos lá correr contra minha obscuridade sobre Rebelo: escritor carioca, profícuo por sinal, que iniciou sua carreira literária por volta dos 1930, no bojo da segunda geração modernista. Trabalhou em jornais, sobretudo no Última Hora de Samuel Wainer, onde publicava suas crônicas sobre o Rio de Janeiro. Mas não somente sobre o Rio, escreveu também sobre muitos lugares que visitou em suas andanças pelo Brasil, registrando estes momentos com fina percepção do movimento, das ironias, dos paradoxos.
Em geral Marques Rebelo, carioca de Vila Isabel, carioquíssimo, é aproximado de outro modernista, embora paulistano, paulistaníssimo. Marques Rebelo e Alcântara Machado estariam, cada qual em sua cidade, no mesmo campo de preocupações e de opções temáticas e formais. Pode ser que às vezes estas "aproximações" mais empobrecem do que esclarecem as trajetórias de cada escritor.
De qualquer modo, a escrita de Rebelo é deliciosa, com os coloquialismos e sacadas típicas da literatura rápida da crônica, flagrando, como uma foto, uma cena do cotidiano que, em verdade, é um recorte discursivo do autor.
É curioso notar que Marques Rebelo, bem como muitos de sua geração, carregava em si o paradoxo de ser um modernista e, no entanto, flertar com o estado autoritário varguista. Tanto é que escreveu para a Revista de Cultura do famoso DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Mas não se engane, Rebelo não era um autoritário ou conservador. Embora que de algumas de suas crônicas exale um certo cheiro de apreço pelos quadros conservadores da sociedade brasileira (sobretudo com relação ao trabalho, à família), Rebelo era um credor da liberdade.
Por mais gasta que esta palavrinha esteja atualmente, na época de Rebelo o sentimento era sincero, a crença verdadeira. Que o diga a ironia que explode ao escrever que a presença de uma delegação soviética na cidade de São Paulo já havia causado o sumiço de 14 criancinhas - todas devoradas pelos comunistas que, como bem se sabe, adoram comê-las. Além do mais a cronologia dos escritos de Rebelo revela uma crescente indignação com o país, com a sociedade, e o abandono progressivo dos termos mais brandos e a adoção de rompantes textuais:
"Meus amigos, o que o homem não tem é vergonha na cara. Tanto assim que é com o maior calhordismo que traça planos para o ano novo, como se os trezentos e sessenta e cinco dias que tem pela frente não fossem feitos da mesma putrefata matéria dos trezentos e sessenta e cinco dias passados.(Novo ano, pg. 106)"
Às vezes penso que tão prazeroso quanto ver um bom escritor novo é descobrir (pessoalmente) um bom escritor antigo que nos andava passando desapercebido. Marques Rebelo é um desses casos.