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A genialidade do cartunista Quino em três lançamentos

Claudinei Vieira

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Quanta Bondade!, Quinoterapia e Bem Obrigado. E Você?
Quino

Martins Fontes

Álvaro Moya esteve na Bienal do Livro de São Paulo para falar de Quino e prestigiar o lançamento destes três últimos livros pela Martins Fontes. Combinação perfeita. Além de ser um dos nossos decanos quadrinistas nacionais, é um teórico e historiador da arte das histórias em quadrinhos. E conhece Quino pessoalmente (e uma miríade de ícones da cultura mundial, mas vamos nos ater ao assunto). Moya é um grande comunicador, muito bem humorado, brilhante, simpático e repleto de informações, a tal ponto que era difícil manter o foco de sua curta palestra no salão da Bienal. Discutiu as diferenças entre Charge e Cartum e suas respectivas origens históricas, para concluir o quanto, em sua opinião, Quino é muito melhor cartunista e chargista (o melhor em atividade no planeta) do que quadrinista, em uma clara referencia à ascendência e popularidade de sua personagem-mor, a Mafalda.

O próprio Quino refere-se a si mesmo como um cartunista que, por conta de algumas circunstâncias, acabou se tornando quadrinista, e que não sentiu pena de acabar com a enfant terible, ao se perceber sufocado pela sua criação. Se isto, por um lado, é uma infelicidade para os amantes da 'pequena libertária', por outro, somos felizardos ao nos depararmos com os resultados de sua plena liberdade criativa.

As diferenças entre Charge e Cartum não nos interessam tanto aqui, estou considerando os dois termos quase como que sinônimos (basta dizer que naquela existem mais marcados um teor e motivo políticos e neste, o sentido é mais pela crítica de costumes), pois Quino transita de uma para o outro com a mesma força e impacto.

Os Cartum expõem toda a carga de sua mensagem em pouquíssimos quadros, embora isso não seja de forma alguma uma regra. Exige-se do cartunista, portanto, precisão, concisão, objetividade, inteligência. É lógico que o traço, o 'estilo' do desenho interessa, mas o fator mais importante é o modo como os elementos desta 'história' são mostrados, dimensionados e inter-relacionados. Texto, quando aparece, serve como mais um elemento gráfico, a dar sustentação ao que a imagem está mostrando.

Ou então o texto é contraste, comentário irônico, bate de frente com a imagem. Um dos trabalhos mais poderosos de Quino e da literatura mundial está no álbum "QUANTA BONDADE". Uma mesma imagem tratada como se fosse uma fotografia de jornal é repetida seis vezes na página: em um cenário de guerra, que transmite de imediato a sensação de um lugar devastado, um soldado está entregando ou recebendo um objeto não identificável de uma mulher acompanhada de uma criança abraçada com uma boneca. Tanto a mulher quanto a criança estendem os braços para o soldado. As legendas para cada uma das imagens são as seguintes:

"BROGOVO: Um soldado do exército que apóia o presidente democrata Mazevich dá chocolate a uma mãe e sua filhinha entre as ruínas de sua casa destruída por guerrilheiros".

"SAN JUAN DE TALUGAR: Um agente do corpo antinarcóticos controla os documentos de uma camponesa. Muitas delas usam os filhos para passar droga escondida entre os brinquedos".
"MAHILI: Para comemorar o dia do exército, as mulheres deste pequeno país seguem a antiga tradição de presentear os soldados com barras de kahoê, um doce típico feito com sementes de puah".

"GENEBRA: Um informe da UNICEF revela que no mundo todo cresce o numero de crianças vítimas de abuso sexual. Na foto, uma mãe oferece sua filhinha a um soldado desconhecido em troca de chocolate."

"KÁFARA: uma pequena kafarita oferece a um integrante da milícia vingadores da paz um poema de agradecimento por ter matado as crianças malufitas que roubaram sua boneca."

Aliás, em comparação com os demais álbuns, este "Quanta Bondade!" é o mais 'falado', contendo grande quantidade de textos. Em contraste, "Quinoterapia" é quase sempre 'mudo'. O que não muda nada no seu impacto.

Determinados quadros trazem uma espécie de economia espartana no desenho, com poucos detalhes, uma simplicidade absoluta, quase uma secura; em outros, há uma luxúria de traços, uma verdadeira floresta de detalhes, uma composição barroca acachapante. Tanto em um caso quanto no outro, batemos o olho e sabemos desde o primeiro momento: nada está fora do lugar, nada está sobrando, ou é de menos, tudo se encaixa e possui uma função precisa. Perfeita. Como 'deveria' ser. Álvaro Moya certa vez perguntou a Quino sobre seu processo de criação e a resposta foi muito elucidativa: entre a concepção de uma idéia e sua concretização como Cartum há um longo processo de experimentação, maturação. A idéia pode ficar martelando em sua mente durante anos, até encontrar seu corpo ideal. Não é à toa, portanto, que o resultado nos parece sempre tão fechado e acabado. Realmente, não poderia ser de outra forma. Coisa de mestre.

Os clássicos "Bem, Obrigado. E Você?", "Quinoterapia" e "Quanta Bondade!" são a prova material, concreta e sensível de sua genialidade.


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