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A volta triunfal do Mestre dos Sonhos: Neil Gaiman

Claudinei Vieira

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Sandman - Noites sem fim
Neil Gaiman

Conrad
160 páginas
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Os sete irmãos Perpétuos não são deuses, nem entidades, ou forças da natureza, seja lá por qual nome sejam conhecidos. Estão acima disso. Eles são. Sempre estiveram. E nunca desaparecerão. Nem poderiam, mesmo se por algum acaso quisessem.

Sonho, Desejo, Desespero, Destino, Delírio, Destruição, Morte. É pena que, em português, se perca inevitavelmente um tanto da férrea unidade que os mantém até mesmo nos nomes em inglês: Dream, Desire, Despair, Destiny, Delirium, Destruction, Death.

Tudo começou no longínquo e místico ano de 1988, quando o escriba inglês Neil Gaiman escreveu uma história diferente, exótica e emocionante, misturando todos os ingredientes de uma viva imaginação aparentemente inesgotável com uma profunda erudição e conhecimentos de cultura, literatura, esoterismo, símbolos mágicos, cinema, mitologia, história, artes etc. etc.. Gaiman provocou um furacão na arte da narrativa seqüencial. Será que já naquela época ele tinha plena consciência de todo o rebuliço que iria causar? Sua segurança, seu estilo, seu gênio narrativo fazem-me crer que sim, pois desde o primeiro número a revista Sandman configura-se uma obra-prima irretorquível.

O INICIO: um "cientista", um feiticeiro, o perfeito e digno herdeiro dos antigos alquimistas, de Cagliostro e companhia, dos místicos e charlatões, durante muitos anos preparou a cerimônia que aprisionaria, por fim, a mais poderosa força do universo, de todos os tempos: A Morte. No entanto, em algum ponto o alvo foi confundido e em vez da Morte ele capturou seu irmão, Sonho. Magnífico e esplendoroso, talvez (embora, a fria, muda, magricela e pálida figura encerrada no casulo de sua prisão mal deixasse o entrever o tamanho do seu possível poder). Mas, no final das contas, um erro estúpido.

Os anos se passaram. Rogos, pragas, promessas, maldições, ameaças, nada mudava sequer o semblante do prisioneiro. O dever de guardá-lo acabou passando por gerações. Ele tinha tempo. Tinha paciência. Setenta anos se passaram até que, afinal, ele conseguiu se libertar. Sedento de vingança, frio e inexoravelmente determinado como resultado de sua suprema humilhação. E fraco, faminto de sonhos, precisa retomar as forças para voltar ao controle de seu reino.

E assim nós, pobres mortais e meros expectadores, assistimos maravilhados a lenta reconstrução de seu poder, penetramos na mais imensa toca de coelho que Alice nenhuma seria capaz de imaginar. Penetramos em corredores e labirintos de infinitas belezas e profundos terrores, descemos aos infernos, ao verdadeiro inferno, enfim. E a cada nova história, cada novo momento, Gaiman desenrolava mais um novelo, deixava perceber mais detalhes, lançava novas pistas, mais mistérios a serem desvendados. Como uma caixa grande que, ao ser aberta, solta mais uma caixa que tem outra caixa e outra e outra, em um jogo infinito.

Conhecemos um por um dos seus irmãos: o soturno Destino que carrega o livro que contem todas as histórias de todos os mundos e tempos; a/o andrógina/o Desejo, feminino/masculino em perfeita confluência, como deve ser todo desejo, afinal; a gorda e maciça Desespero; o enigmático Destruição. Delírio é a "caçula", eternamente a mais jovem dos Perpétuos. Por fim, a mais carismática, simpática e "desencanada" Morte que já existiu. Death, desde seu primeiro aparecimento (foi com ela que Gaiman começou a mostrar os irmãos de Sonho), fez um sucesso estrondoso, quase a ponto de desbancar a preponderância do irmão. Foi a única que teve varias historias independentes em volumes separados. Com certeza, ela fez parte de muitos sonhos eróticos pelo planeta.

Durante nove anos, mês a mês, Gaiman fez e desfez de nossas imaginações. Até que acabou. Segundo o autor, "porque toda boa história deve ter começo, meio e fim; e Sandman era uma boa história". Mais de duas mil páginas, dez volumes encadernados, vários especiais. Definitivamente, uma boa história.

Enveredou por outras praias. Escreveu romances, premiadíssimos, roteiro de cinema, montou seu próprio filme, e uma recente novela infanto-juvenil de terror. Até que rumores, boatos e cochichos começaram a divulgar a formidável noticia de que Sandman poderia voltar! Gaiman, na verdade, nunca descartou a possibilidade, sempre manteve a expectativa e o suspense de retomar o personagem. Esperto, negaceava, driblava daqui, fintava dali, aumentava as esperanças em um momento, não falava mais disso em outros.

E voltou! Mais estiloso, impactante e luxuoso, impossível. "ENDLESS NIGHTS". "NOITES SEM FIM". Sete histórias. Sete contos. Um para cada um dos Perpétuos. Mais: cada uma das histórias ilustrada por um artista mundialmente famoso no universo das narrativas seqüências, das HQs. ("Narrativas Seqüenciais" foi o nome com o qual Will Eisner, o monstro sagrado dos Quadrinhos-com-qualidade-literária, criador de Spirit, usou para determinar e distinguir sua arte como qualquer outra arte, tão séria, densa e clássica como as demais. Acho o termo um tanto empolado. Creio que Quadrinhos é simpático o suficiente para fazer as devidas distinções e é melhor do que o estúpido "Comics", como ainda são conhecidos popularmente nos Estados Unidos).

P. Craig Russell ilustra Morte; o legendário Milo Manara (!) ilustra Desejo, como não poderia deixar de ser (leiam e entendam porque). O também italiano Miguelanxo Prado faz Sonho. Barron Storey faz, talvez, a mais impactante e sensível história do volume inteiro, Desespero, com um trabalho gráfico de tirar o fôlego. O maravilhoso Bill Sienkiewcz não poderia ser melhor escolha para cuidar de Delírio. Glenn Fabry, de Destruição e Frank Quitely ficou com o argumento mais fraco, Destino, que fecha o livro.

"Endless Nights", no seu lançamento nos EUA, teve uma tiragem inicial de cem mil exemplares; e, pela primeira vez na história do New York Times, uma HQ entrou em sua lista dos mais vendidos. A editora Conrad honrou o livro com uma edição maravilhosa, no nível de qualidade da original, mantendo a capa e o primor do papel e das ilustrações, conservando o belíssimo trabalho com todo o seu vigor. Tanto para os fanáticos antigos quanto para os novos que estiverem chegando agora, é uma festa absoluta para todos os sentidos.

Agora, só falta sonhar com novas aventuras do Senhor dos Sonhos e sua família.


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