Vamos começar com uma adivinhação: ele podia passar até dez anos dedicando-se a escrever um livro, tamanha era sua busca pela perfeição; seu texto "O Vitral" foi inserido na lista dos cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Ítalo Moriconi; escreveu ficção, poesia, peças de teatro, livro infantil, roteiros e ensaios; sua obra foi traduzida para o alemão, o espanhol, o inglês e o francês; Vargas Llosa e Julio Cortázar são alguns de seus admiradores. Quem é ele?
Se você não sabe a resposta, não se preocupe. Você é apenas um dos muitos leitores brasileiros que desconhecem a obra do escritor pernambucano Osman Lins, embora ele seja cultuado pela crítica e dono de textos muito significativos em nossa literatura.
Mas agora não há desculpas. Um renovado interesse pela obra de Osman Lins parece surgir, oferecendo a oportunidade de conferir o trabalho do autor nas telonas, no divertido filme "Lisbela e o Prisioneiro" - peça de teatro escrita por Osman e adaptada para o cinema por seu conterrâneo Guel Arraes -, e também na literatura, por meio da reedição de sua dramaturgia e da recente publicação pela Global Editora dos "Melhores Contos de Osman Lins", seleção de 12 contos do escritor.
A seleção é dividida em duas partes; na primeira, figuram os contos do livro "Os Gestos" (1957), um dos primeiros trabalhos de Osman Lins para a literatura. Nele, o leitor vai encontrar o rigor formal característico deste autor - artesão da palavra -, além de entrar em contato com os personagens preferidos de Osman: crianças, velhos, pobres, doentes, mulheres flagradas em ações cotidianas, todos inseridos num ambiente doméstico opressor.
Em "Os Gestos", primeiro conto do livro, o autor aborda a solidão e a incomunicabilidade entre os homens ao mostrar um personagem mudo e os cuidados constrangidos e por vezes excessivos de sua família, fazendo com que ele se sinta ainda mais enclausurado em seu universo. Um tema recorrente no livro aparece aqui pela primeira vez: a impossibilidade das palavras de exprimir certos sentimentos.
A narrativa "O Vitral" mostra a alegria juvenil de uma mulher ao planejar a comemoração do seu aniversário de casamento, enquanto o marido parece não se importar com a data. A solidão, também presente neste conto, aparece em diversos momentos da literatura do pernambucano Osman Lins, que se diferenciou dos escritores de sua época por deixar de lado a tradicional narrativa regionalista e enfocar temas universais: falta de diálogo entre familiares, metalinguagem, submissão da mulher ao homem e sua resignação frente às condições precárias de vida, preconceito da sociedade (juíza das ações), convivência de pessoas com personalidades opostas, saudosismo.
E em meio a estes temas frugais e igualmente envolto na procura do autor por um tom e uma linguagem peculiares, o lirismo surge altivo. Um dos contos mais líricos da primeira parte de "Melhores Contos" é certamente "Elegíada", em que um idoso aproveita os últimos momentos ao lado da esposa, durante seu velório, para relembrar a vida feliz que compartilharam. Ele imbui de beleza situações corriqueiras ao relembrar seu passado:
"Às vezes, eu te trazia biscoitos. Tu os guardavas e eu te censurava, porque me parecias avara (...). Mas eu te censurava sem rancor, porque sabia que a tua avareza era um modo de prolongar, ingenuamente, uma lembrança minha. Também não poderei contar isto a ninguém. Dirão que me preocupo com migalhas ou invento qualidades que não tinha."
A exemplo do trecho destacado, o envelhecer, incluindo os preconceitos que o cercam e a maneira como ele é ridicularizado pela sociedade, é tratado neste conto com extrema ternura, assim como a resignação a que o velho se submete.
Prosa e poesia continuam aliadas na segunda parte desta seleção de contos, que reúne seis textos do livro "Nove, novena" (1966), marco na literatura de Osman Lins, por representar uma mudança de rumos em sua obra; a partir de então, o autor opta pela experimentação narrativa e estrutural dos contos. Neles, tudo parece ter sido planejado e exaustivamente lapidado: as paisagens, os objetos em cena, os gestos dos personagens. Nada está ali por acaso.
O conto inaugural desta segunda parte é "Os confundidos". Assim como todas as narrativas de "Nove, novena", pode causar algum estranhamento à primeira leitura, exatamente por se revestir do estilo experimental buscado por Osman Lins nesta fase de sua obra. O conto acompanha a discussão de um casal acerca das crises de ciúme do personagem masculino. A confusão que homem e mulher demonstram ao longo da conversa (em que está ausente a segunda pessoa do diálogo), não se lembrando ao certo de quem fez o quê e de que maneira, é ressaltada na narração repleta de sujeitos indefinidos:
"Quem, com gestos nervosos, abre a cigarreira dourada (...)? Um se levanta, anda, outro permanece sentado, depois este se ergue, atravessamos a sala, alguém volta a sentar-se..."
Em "Nove, novena", Osman Lins convida o leitor a um jogo de interpretações, propondo uma leitura participativa, preferindo a sugestão à conclusão. Aqui suas palavras contêm o tempo da reflexão e o leitor pode escolher quais caminhos seguir.
Um exemplo de conto onde há diversas possibilidades de leitura é "Conto Barroco ou Unidade Tripartita". Narra a história de um capataz que precisa matar um homem a mando do patrão, sem ao menos saber o motivo. Ao leitor são apresentados três caminhos de leitura e diversos para a interpretação. Mas a novidade está no fato de ele poder escolher não apenas um final, mas também um início e um meio, todos apresentados em três versões.
A alternância de narradores marca o conto "Pentágono de Hahn", em que cinco histórias independentes são apresentadas por cinco narradores em diferentes fases da vida (da infância à velhice), cada um representado por um símbolo gráfico. Hahn, a emblemática elefanta de circo, perpassa as cinco narrativas, despertando nos narradores-personagens rebeldia, amor, solidão, esperança, medo, fascinação.
O último conto do livro é considerado por muitos a obra-prima de Osman Lins. "Retábulo de Santa Joana Carolina" foi inspirado na avó paterna do autor e traz a saga da resignada e generosa Joana, colecionadora de qualidades e mistérios. No início de um dos 12 segmentos que compõem o texto, o leitor depara com um "O que é? O que é?", reafirmando o tom lúdico por vezes assumido pela literatura de Osman Lins.
Esta fase de sua obra, de caráter ousado e experimental, provavelmente foi a responsável pelo termo "literatura difícil" empregado pela crítica. De fato, sua literatura não é de fácil e rápida compreensão, mas nem por isto é menos prazerosa. É preciso passear nas entrelinhas desta escrita feita de palavras e "gestos", sinalizando como mímica à espera da interpretação de quem lê. Mas o leitor poderá perceber: todo esforço é recompensado. Ao findar a leitura, fica a sensação de ter encontrado o pote de tesouro, e tudo mais que ao leitor é permitido imaginar.
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