Alberto Moravia era um operário da escrita. Imbuído de uma rígida disciplina, escrevia todos os dias, várias horas por dia. Foi assim em quase toda a sua vida, em uma busca consciente e incansável do melhor resultado, da melhor expressão, de um estilo próprio e diferenciado.
Isso se acentuou quando seus livros não alcançaram o sucesso de público e de crítica de sua primeira obra, "Os Indiferentes", uma contundente descrição de uma família burguesa romana. Continuou escrevendo sem parar até construir um arco de obras que se tornou uma das mais importantes do século XX.
Cada livro seu lança uma luz nova sobre os mistérios da existência humana, que talvez até tivéssemos a intuição de conhecer, mas no qual se tornava necessário alguém que nos apontasse e nos mostrasse. Moravia é um daqueles raros escritores cuja leitura não traz somente prazer e gosto; ele traz consigo uma excitante descoberta de nós mesmos.
Extremamente popular não só na Itália, viu seus livros serem transformados em filmes por diretores do quilate de Vittorio de Sica, Bernardo Bertolucci ou Jean-Luc Godard, entre outros. Nasceu em 1907 e morreu em 1990, na mesma Roma que, de tão constante, é praticamente uma personagem de suas obras e não somente um cenário.
Além dos seus romances e dos volumes de contos já publicados, Moravia havia deixado escritos em muitas publicações, revistas, jornais que nunca haviam sido recolhidos. Simone Casini e Francesca Serra empreenderam uma surpreendente pesquisa arqueológica, uma verdadeira caçada literária.
Em sua introdução, elas lembram que, em 1952, quando Moravia publicou uma seleção de 24 dos seus contos, ele já havia escrito oito romances e por volta de 230 contos. Ao longo do tempo, outras coletâneas foram sendo organizadas como em "Contos Romanos", de 1954, "Contos Surrealistas e Satíricos", de 1956, ou "Novos Contos Romanos", de 1959. E, mesmo assim, encontraram mais de uma centena de contos espalhados, dos quais 69 foram aqui selecionados.
Esta dispersão e "esquecimento" não implicam necessariamente um desprezo do autor por estes contos. Alguns, inclusive, possuem um grau de qualidade comparável aos seus melhores escritos. Não há uma razão em especial, talvez a mais forte seja o simples fato de que Moravia se importava mesmo em escrever sempre coisas novas e não queria se preocupar com o que já havia publicado ou com experiências realizadas anteriormente.
Acredito que "experiências" seja uma boa palavra neste caso. Acompanhando este arco de 1928 a 1951, percebemos claramente como Moravia vai criando, descobrindo, experimentando de um lado, tateando do outro. E, independente de época ou de estilo, há pérolas em cada um deles.
Não existe uma progressão de qualidade. Há caminhos, veredas. Do lirismo melancólico e lacrimoso de "O Ladrão Curioso" ao realismo brutal e chocante de um manicômio em "A Casa de Tr6es Andares" ou a bem-humorada descrição da mente de um louco em "As Maçãs Deliciosas".
Há um humor escrachado, misturado com crítica social e política no delicioso "O Leão". Fina, mulher de Talete, ganha um enorme gato de presente. O gato cresce rápido e revela ser, na verdade, um leão. No entanto, Fina não consegue fazer com que ele se alimente, mesmo com os bons pedaços de carne crua com os quais é servido.
Está definhando de inanição, sob os olhares indiferentes de Talete e a aflição da esposa. Quando então um nojento, gorducho e indolente pretendente a amante de Fina entra, sem saber, no aposento onde está "hospedado" o leão e é devidamente jantado.
Daí por diante, não haveria mais problemas com sua alimentação, pois eles tinham um grande convívio social, davam muitas recepções e conheciam muitos burgueses, nobres, banqueiros, etc. Menos os chatos intelectuais, que são gente reconhecidamente magra, ranzinza e indigesta.
Para quem ainda não conhece Alberto Moravia, "Contos Dispersos" se torna, assim, uma excelente porta de entrada. E não faltaram surpresas e emoções para os que já leram "Contos Romanos", "A Ciociara", "A Romana", etc.
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