Coraline
Neil Gaiman
Editora Rocco
160 páginas
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Neil Gaiman escrevendo uma história infantil? Uma adaptação moderna do "Alice no País das Maravilhas"? O autor de "Sandman" com uma obra sem complicadas e obscuras referências místicas, com uma linguagem simplificada que qualquer criança pode entender e apreciar? De uma certa forma, sim.
Por outro lado, creio que seria mais apropriado dizer que "Coraline" é uma viagem um tanto ou quanto mais sombria do que "Alice"; é o seu, digamos assim, lado negro; aquele canto do espelho onde não bate tanta luz. Infanto-juvenil, sim, mas pelo viés dos temores primais que carregamos desde gerações longínquas, desde nossa infância e as quais nunca conseguimos nos livrar, somente amenizar; as referências continuam também, mas neste caso sem necessidade de explicitação. Edgar Alan Poe, o terror gótico, castelos de fantasmas, "O Bebê de Rosemary", torturas medievais, sem nunca serem citados, estão todos aqui. "Coraline" é, então, um livro infanto-juvenil... de terror. Linguagem simples e direta? Sim, é verdade, mas tão depurada, tão forte e incisiva, tão eficiente que demonstra, pura e simplesmente, o trabalho de um mestre da literatura. O medo, o suspense, a tensão, o desconhecido, o estranho, o escondido, o nebuloso, o desconforto, são de tirar o fôlego. Pode esquecer os livros de Clive Barker e Stephen King. Eles não chegam nem perto de assustar como faz Gaiman nesta "singela" historinha.
Coraline é uma menininha que acabou de se mudar com seus pais para uma velha mansão que foi dividida em lotes e alugada para várias pessoas. Ela não tem nada para fazer. Seus pais ficam trabalhando no computador. Seus vizinhos são duas senhoras muito velhas e meio caducas que moram no andar de baixo e um velho completamente maluco que mora no andar de cima e diz que tem um circo de ratinhos, e todos eles a chamam de Caroline. Ela explora o lugar e os arredores. Conhece todo o terreno baldio em volta, sabe do poço sem fundo, que a casa tem vinte e duas janelas e quatorze portas, sendo que uma delas dá para uma parede de tijolos.
Um certo dia descobre que a parede de tijolos sumiu e no seu lugar há um corredor escuro. Curiosa e sem ter o que fazer, atravessa o corredor e descobre uma outra-mansão, talvez a mesma mansão quem sabe?, e nela uma outra-mãe está preparando uma comida deliciosa, um outro-pai te dá a atenção que o seu pai "normal" não dá, e parecem ter muito amor e querem que ela fique com eles. Para sempre.
Há alguma coisa muito esquisita neles. No lugar dos olhos, eles têm botões, as mãos de sua outra-mãe são muito finas e as unhas extremamente compridas, as cores das paredes do seu outro-quarto são berrantes e exageradas. Coraline decide não ficar ali, mas quando volta ao seu mundo "normal", seus pais "normais" desapareceram.
Sua outra-mãe quer ficar com ela. Seja como for.
Para ler "Coraline", eu quis ficar completamente sossegado. Deixei que minha casa ficasse quieta e só abri o livro quando todos foram dormir e eu estava sozinho. Não sei se você aceita conselhos, mas não me custa dar um pequeno aviso: acho melhor você não fazer a mesma coisa. O livro é pequeno, muito fácil e rápido de ler. Quando acabei, percebi que o resto da noite demoraria muito, muito mesmo, para passar.