PISANDO NO MUNDO
Fanny Abramovich
Geração Editorial
31 páginas
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O que você faria se ao chegar em casa encontrasse este bilhete de seu filho:
"Decidi andar por aí com meus próprios pés. Visitar lugares diferentes, descobrir novidades. Não se preocupem; vou pra longe, mas sem sair de perto. Só até saber voltar. E além do mais, me preparei: estou levando comida e bebida e Dog está comigo. Volto de tarde, ainda com sol no céu. Mil beijocas, Zeca andarilho."
Hum... o autor desta carta parece responsável e decidido, não? Portanto, estaria tudo bem, se o dono destas palavras não passasse de... uma criança! E Dog não fosse apenas um cão companheiro de passatempo.
Tudo começou com um fim de semana pra lá de chato: a mãe estudando na Argentina (o que despertou a curiosidade de Zeca: ela carregava merendeira? Usava uniforme? Recebia boletim com nota vermelha pedindo pro filho assinar?), o pai chamado às pressas para um trabalho no Banco, o melhor amigo fora de casa... E Zeca, nosso herói, como fica? Como controlar a saudade que sente da mãe? Como encolher a vontade de brincar com o pai? O que fazer com a falta do que fazer?
Com estas caraminholas na cabeça e idéias borbulhantes, o esperto garoto logo descobre que ficar apenas reclamando da vida não está com nada e prefere tomar uma atitude: pisar sozinho no mundo. Inspirado por uma borboleta que o sobrevoa, Zeca, que nunca havia se afastado de casa sozinho, cisma de variar e parte para uma aventura buscando "alargar seu olhar" e desvendar novos caminhos. Animado e cheio de si, convida seu cachorro Dog para acompanhá-lo nesta empreitada.
Culpa dos pais, que não dispensaram ao menino a devida atenção? Culpa da sexta-feira, que não oferecia melhor opção? Que nada! A culpada é a escritora Fanny Abramovich, que inventou de inventar a partir de ilustrações do mineiro Cláudio Martins esta bela e sensível história. Os desenhos foram sendo costurados com lirismo e doçura, particularidades a que os leitores de Fanny já se acostumaram.
A escritora ofereceu total liberdade para seus personagens, que mergulharam no rio, conheceram uma árvore chorona com cara de gente, encontraram uma cobra e um sapo cansado de levar vida de príncipe, espetaram-se em urtigas, apaixonaram-se pela vista do alto de um morro, fizeram piquenique e tiveram um encontro surpresa com frutinhas com olhos, boca e até bigode! enquanto escutavam batucadas feitas por uma flor.
Em sua busca por novidade, Zeca aprende velhas e boas lições. Toma decisões sozinho, conhece novos amigos, aprende a lidar com seus medos, descobre a alegria de presentear, o prazer de sentir o sol no rosto e pisar em folhas secas.
Uma vontade perene o acompanha: compartilhar suas descobertas com o pai, a mãe, os amigos. "Não ter para quem olhar, com quem falar, num momento maravilhento, é meio-chato, meio-bobo."
Mas o grande trunfo de "Pisando no Mundo" não são as aventuras vividas por Zeca em sua viagem de tênis, nem as admiráveis ilustrações de Cláudio Martins. Quem rouba a cena é a linguagem de Fanny, quase personagem do livro. Peculiar, poética, dieta e ao mesmo tempo para além da superfície das palavras.
Para contar esta história, a autora preferiu frases curtas entremeadas por ações e sentimentos que se resumem em uma palavra, sendo esta muitas vezes um neologismo divertido:
"Zeca atentou. Pareceu que a borboleta chamou por ele. Zoando perto, barulhando mansinho. Convidando para acompanhar o seu vôo bailante. Ver outros lugares. Zeca coceirou de curiosidade. Inchou de vontade."
A narração com frequência se apropria do linguajar do personagem Zeca para que o leitor compreenda com exatidão o que se passa na cabeça dele.
"Zeca pensou na mãe. Deu de estudar, voltou pra escola. (...) na Argentina. Só numas de comer churrasco, cantar boleros cafonas e se congelar de frio. Incrível. Uma mulherona do tamanho e da idade dela na escola. Sem ninguém obrigar. Foi porque quis. Engoliu o espanto."
Para os pais que insistem em não passar os raros momentos de folga ao lado dos filhos, fica a dica de compartilhar a leitura de "Pisando no Mundo". Se ainda assim preferirem jogar futebol com os amigos ou se dedicar ao computador, podem correr o risco de, ao chegar em casa depois de um dia de trabalho, encontrar um inesperado bilhetinho...