Melhores Crônicas de Machado de Assis
Salete de Almeida Cara (org.)
Global Editora
406 páginas
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A ironia machadiana é um caso sério. Requer esforço concentrado dos maiores estudiosos de sua obra fértil para que seja formulada, ao menos, uma proposição básica.
Sabe aquela cara de tacho com que ficamos ao percorrer as páginas de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e tropeçar em sacadas rápidas e certeiras sobre o que somos ou fomos a vida inteira? É isso.
Burilada em prosa publicada, com esmero, a verve de Machado de Assis ganhava em força literária e ficcional o pouco que perdia em ferocidade e urgência. Imagine este mesmo autor (para muitos o maior escritor em língua portuguesa de todos os tempos), hábil manipulador da palavra e vanguardista por vocação, a despedaçar velhas convicções em crônicas de revista e jornal, com todo aquele saudável rancor e fúria dos bons colunistas?
Pare de imaginar. Esse Machado de fato existiu. E a editora Global tratou de selecionar suas melhores crônicas e revesti-las em livro, como um dos títulos da bela coleção Melhores Crônicas. A pesquisa, a introdução e a biografia ficaram a critério da venerável professora da USP Salete de Almeida Cara.
As crônicas de Machado de Assis, expostas nos maiores veículos de imprensa de sua época (Revista "O Espelho", "O Cruzeiro" e Diário "Correio Mercantil"), impressionam pela pujança do estilo, pela completa falta de compaixão com os impostores da arte e mais ainda pela atualidade das abordagens.
No artigo "O Empregado Público Aposentado", Machado antecipa, em mais de um século, a discussão sobre a reforma da Previdência (a opinião dele deixo para o deleite dos leitores). Atrelado ao nosso id coletivo, está o superego venenoso do autor de "Dom Casmurro".
Impossível não rir quando ele esculhamba os próprios jornalistas e o patético da sociedade carioca em fins do século XIX. Que não faria Machado de Assis, esse dos textos nervosos, com as fofocas e frivolidades do tempo presente?
Melhor que minhas atabalhoadas impressões, seria a leitura integral deste documento histórico. Não pretendo desenvolver mais aqui, sob pena de passar por fanqueiro ou parasita literário, duas das espécies varejadas pelo nosso mais laureado escritor.
Sabe como é: a ironia de Machado é um caso sério. Seríssimo.