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República das bicicletas

Emanuel Campos

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REPUBLICA DAS BICICLETAS
MOREIRA, MOACYR

ATELIE EDITORIAL
200 páginas
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Moacyr Moreira, autor e médico, nesta ordem, chega ao seu segundo livro, República das Bicicletas, depois de sua fantástica estréia no mundo literário como autor no livro Lâmina do Tempo.

Primeiramente falando do livro, é necessário registrar o quanto é belo, com ótima capa e diagramação de Silvana Zandomeni, uma maga na arte, faz do livro um espetáculo no que se trata de apenas folheá-lo. Mesmo sem falar de seu principal, o livro é constitui uma grande jogada da Ateliê Editorial, que por sinal há tempos demonstra ter crescido, com cada vez mais trabalhos belíssimos, em diagramação e conteúdo. Mas falemos do livro.

Poderia até dizer que em relação ao seu primeiro trabalho Moacyr está muito mais maduro, com textos melhores elaborados, mas seria desnecessário. Exceto por dez contos realmente brilhantes e de fato mais maduros que em seu primeiro livro, o República das Bicicletas se presta a um novo fim, ser uma coletânea de mais de cinqüenta crônicas feitas pelo autor em seus diversos meios de expressão: a gazeta da zona leste, na página Agência Carta Maior e na página do humorista Beto Hora, do programa Na Geral, atualmente na Rádio Bandeirantes.

São dez exercícios de estilo, se é que pode se chamar assim os dez trabalhos que dedica a escritores do cenário contemporâneo, e mais cinqüenta e sete crônicas, selecionadas em mais de 150 trabalhos e dignas de figurarem no livro.

Em um elegante prefácio Lourenço Diaféria discorre sobre a crônica e sua vivacidade além da vida do próprio fato, progenitor do texto. Narra brilhantemente como todo cronista sabe, de antemão, que a crônica só ganhar pernas e levanta-se durante a própria leitura, sendo responsabilidade também do leitor manter viva a crônica. Já a orelha de Enio Squeff discorre igualmente bem sobre a dificuldade em se definir uma crônica, sabendo-se que como quase tudo que escrevem Rubem Braga e Luis Fernando Veríssimo, é mais fácil concluir que a crônica é melhor definida por aquilo que ela não é.

A crônica realmente ainda é tida por muitos como um subgênero da literatura, pois, de todas as formas de escrita, esta é mais sujeita a ação do tempo. E felizmente mesmo isto este livro ratifica. O que Moacyr pretende por esta obra é nos passar momentos primorosos da vida, grandes lembranças, momentos engraçados e até um tanto nostálgicos, tudo isto sob sua óptica ímpar.

As crônicas estão agrupadas por temas dentro do livro, deixando um ar de continuidade sobre os temas abordados. E Moacyr não economiza na hora de abordar temas, falando de amor, da cidade, os gestos e seus significados, a república, os livros, o mundo e o tempo. Ainda faz os já mencionados exercícios de estilos em "os outros".

O próprio título do livro deriva de uma das suas crônicas, a república das bicicletas, onde o autor discorre de maneira graciosa sobre o fechamento do parque do Ibirapuera aos ciclistas, ato que já até foi revisto e cancelado, mas o título da crônica agradou por demais ao próprio autor, que justifica muito melhor do que eu poderia fazer, a escolha deste título:

"... remete a idéia de um país que engatinha em setores nos quais outras nações já se utilizam de supersônicos. Daí o título do livro ser este. Uma república de manivelas num universo informatizado. (...)"

E apesar do manifesto, presente não só nas entre linhas do título, Moacyr ainda nos compartilha suas indignações com o país, no descaso por educação e na saúde, problemas que persiste até hoje, por sinal. Mas não é só disto que são feitas as crônicas presentes, o livro trás momentos bárbaros, momentos como a copa do mundo, não só da última, de 2002, mas as cinco últimas, que viu com seu pai, e a que viu em Cuba ao lado de Mozer, e tantas outras.

E, encerrando o livro, chegamos a dez belíssimos exercícios de estilo, um capítulo denominado "os outros", como já foi apresentado, que homenageia: Humberto de Campos, Fernando Sabino, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Ignácio de Loyola Brandão, Clarice Lispector e Carlos Heitor Cony.

Enfim, Republica das Bicicletas, nos mostra que a crônica ainda pode ser sim, muito bem degustada depois de algum ou muito tempo. O sentimento impresso nestas crônicas continua vivo, as lembranças e cobranças por um país melhor continuam válidas e as homenagens são ainda momentos à parte dentro do livro, maravilhosos exercícios de estilo. Uma grande coletânea, de ótimos trabalhos, bem selecionados e a certeza de uma leitura aprazível.

Só fica no ar uma questão. Quem nasce na república das bicicletas o que é? Entre Bicicletano ou Republiquence, o mais provável é que sejam todos loucos de rodinha, amando como amam o país (e a cidade) em que vivem, sendo o país (e a cidade) do jeito que são...


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