A Órbita dos Caracóis
Reinaldo Moraes
Companhia das Letras
224 páginas
Compre
Puxa vida, 18 anos para esperar um livro novo de Reinaldo Moraes! Isso significa que uma geração inteira não chegou a conhecer sua linguagem dinâmica, o ritmo frenético dos enredos, as gags, o palavreado "jovem" e contemporâneo que tanta sensação provocou quando Tanto Faz foi lançado pela saudosíssima coleção da Brasiliense em 1981.
As famosas Cantadas Literárias eram um misto de irreverência, liberdade artística e leve crítica social e política que fizeram a delícia de jovens leitores da época. Tanto Faz caía como uma luva dentro do espírito da coleção, fez o nome do seu autor, que escreveu mais um livro, Abacaxi, lançado em 1985 e depois parou. Literariamente falando, é lógico, já que Moraes possui um trabalho como roteirista para televisão e cinema que continuou por todos estes anos (escreveu o roteiro de Tainá, por exemplo, uma aventura eco-infanto-juvenil-arqui-politicamente-correta melosa e intragável), mas os seus romances faziam uma tremenda falta.
No entanto, não foi sem um certo receio que comecei a ler A Órbita dos Caracóis. Afinal, Moraes é agora um senhor de mais de cinqüenta anos que há tanto tempo não escreve ficção. Quais seriam seus interesses no momento, quais suas atuais pretensões literárias e, mais que tudo: o que teria sobrado de sua antiga capacidade de encantamento?
Não há problema. A Órbita dos Caracóis é um dos livros mais simpáticos, divertidos e irreverentes dos últimos tempos. Obra perfeita para relaxar, dar risadas e descarregar nossas tensões do dia-a-dia. Divertimento gostoso, despretensioso e inteligente. Comédia escrachada, é um verdadeiro desfile de frases surpreendentes e engraçadas. Todos os clichês possíveis são retomados, remontados e ironizados.
Os personagens transitam entre a caricatura explícita e um non-sense absurdo, mas são dotados de uma característica marcante: são tremendamente carismáticos. Essa aura de simpatia consegue torná-los verossímeis mesmo no meio das situações mais surrealistas. Os principais são Tota, um gênio-bioquímico desencanado da vida, sua namorada Juliana, uma hacker de família podre de rica, também desencanada da vida sem deixar de ser burguesa e Morimoto, o Mori ou o Japa, companheiro de Tota e também gênio bioquímico.
A história? Ora, a história... Na verdade, o enredo serve somente para que Moraes exerça sua verve histriônica e nos mate com sua graça.
Em todo caso... Tudo começa por conta de uma doença propagada pelas lesmas francesas, isto é, os tais escargots, e enquanto estas lesmas estão matando uma boa parte da burguesia paulistana, tem um cara com a garganta cortada responsável pelo super-mini-mega-dvd que vai parar na antena do carro da Juliana; no meio do caso, tem um alemão-nazista-neurótico-de-guerra e tem também um satélite que vai cair em São Paulo e provocar uma hecatombe, matando milhares de pessoas e atrapalhando a transa de Juliana e Tota, enquanto o Mori está sem namorada...
E tem a impagável Creuzélia que derruba o dvd na privada do Batman enquanto toma uma cerveja que custa doze reais por latinha e a amiga-gordinha-sexy da Juliana que, por acaso também está sem namorado... Além do Gaston, o escargot de estimação do laboratório de química.
Enfim, há uma palavra que explica tudo isso: Sincronicidade. No sentido de que tudo tem a ver com tudo, mesmo que nada pareça ter relação com tudo e com nada, já que todas as coisas fazem parte de uma mesma e única rede de relações multideterminantes. Com a ajuda da rabdomancia, tudo fica mais claro ainda, segundo Tota.
Há uma palavra que explica melhor. Ou duas: Reinaldo Moraes. Para o nosso prazer.
Parece que ele retomou o gosto pela literatura: está escrevendo contos, vai publicar outro livro. E vai reeditar Tanto Faz. O que provoca outro calafrio de apreensão antecipada: qual será a sensação depois de mais de vinte anos de sua publicação?
De qualquer forma, é uma gostosa expectativa.