Jesus: Anúncio e Reflexão
Francisco Benjamin de Souza Netto (org.)
Coleção Idéias 4, IFCH-Unicamp
420 páginas
No longínquo século VIII DC, mais exatamente no ano 787, o Segundo Concílio Ecumênico de Nicéia considerou oportuno confirmar a excomunhão do papa Honório I, não obstante um pontífice correto e piedoso, e ademais falecido já há 150 anos, por ter-se expressado em termos imprecisos e ter hesitado acerca de uma questão crucial, derivada da Encarnação, qual seja, a das duas vontades de Jesus Cristo.
A doutrina ortodoxa, que afirma a existência das duas vontades, a divina e a humana, posto que o Cristo é "verdadeiro Deus e verdadeiro homem", é certamente de feição extraordinariamente sutil e complexa. Afinal, a vontade humana de Jesus não poderia em sã razão opor-se à vontade divina. Aliás, foi exatamente isto o que o infeliz pontífice afirmou.
Seja como for, a teologia, e não apenas a cristã, de maneira geral age no sentido de pontuar de forma incisiva todos os "is", sem esquecer de cortar todos os "tês", não havendo, portanto, "flexibilidade" para uma certa "latitude" de pontos de vista.
A nosso ver, as teologias - seja a católica, a ortodoxa, a protestante, sem falar das não-cristãs, como a judaica e a islâmica - constituem como que metafísicas "interessadas" e algo "bairristas", posto que tratam de defender a todo custo e de, por assim dizer, "nacionalizar" os postulados da "filosofia perene".
Um exemplo entre muitos desta feição fautora de cismas e engendradora de anátemas é a célebre questão do Filioque; sintetizando simbolicamente uma delicada e intrincada problemática numa imagem famosa, o filósofo das religiões alemão Frithjof Schuon (1907-1998) assemelha geometricamente a primeira Pessoa da Trindade a um ponto; a Terceira Pessoa, aos raios que da Primeira saem em todas as direções; finalmente, a Segunda Pessoa é como que o círculo concêntrico em torno do ponto central e que ao mesmo tempo corta os raios. Visto deste modo, é como se os gregos contemplassem os raios emanando do centro antes de serem traspassados pelo círculo, daí afirmarem que o Espírito Santo deriva do Pai; já os católicos, distintamente, como que vêem os raios já num ponto no "espaço espiritual" cortados pelo círculo, daí afirmarem que o Espírito deriva do Pai pelo Filho.
A pergunta que poder-se-ia fazer é: as duas posições não poderiam coexistir, ambas sendo aceitas como pontos de vista legítimos? Uma certa "tensão" seria inevitável, mas certamente algo de mais equilibrado do que cismas, desentendimentos e anátemas que atravessam os séculos.
Schuon se pergunta, em "Forme et Substance Dans les Religions" (Dervy Livres, Paris, 1975), se não é o caso de admitir certa "flutuação" em assuntos que a própria Revelação não considerou expediente definir em termos peremptórios; a excessiva dogmatização engendra uma pletora de divisões e condenações mútuas.
Pois bem, a questão da "dupla vontade" é apenas um dos fascinantes temas abordados na recém-publicada antologia "Jesus: Anúncio e Reflexão", organizada pelo professor de Filosofia da Unicamp e monge beneditino Francisco Benjamin de Souza Netto, o famoso Dom Estevão. O volume integra a Coleção Idéias, da Editora da Unicamp.
A coletânea inclui ensaios de estudiosos, professores e pesquisadores das principais universidades paulistas, como Unicamp, USP e PUC, bem como de instituições como a Universidade Gregoriana de Roma, o Instituto Metodista de S Paulo, a universidade de Maringá, o Instituto Teológico Pio XI e a Universidade de Paris.
Entre os colaboradores, figuras conhecidas de disciplinas tão diversas e complementares como teologia, filosofia, história, psicologia, antropologia, sociologia, pedagogia e literatura. Entre eles, Francisco Catão, Jean-Paul, Luiz Roberto Salinas, Franklin Leopoldo e Silva, Xavier Tilliette, Luiza Maria Bellini, Oswaldo Giacoia Jr, Amnéris Maroni, José Roberto Nociti Filho, Michael Lowy, Eliane Robert Moraes, Eliane Moura Silva e Pedro Lima Vasconcelos.
Além do editor do volume, Francisco Benjamin de Souza Netto, que contribui com um alentado e rigoroso ensaio de 150 páginas resumindo as complexas relações entre as dimensões divina e humana na pessoa de Jesus Cristo, as relações entre o Verbo e Deus mesmo, e dele para com a humanidade, como percebidas através das páginas do Novo Testamento, dos quatro Evangelhos ao Apocalipse.
O Cristo é "o Filho unigênito engendrado, que possui duas naturezas, sem confusão, imutavelmente, indivisivelmente e inseparavelmente, sem que a distinção das naturezas desapareça na união", como reza a definição do 4º Concílio Ecumênico, o de Calcedônia, em 451.
Mosaico de contribuições vindas de distintas áreas do saber com variadas abordagens, pressupostos e metodologias, a antologia inclui estudos acerca das visões de Jesus por parte de figuras tão díspares como Santo Tomás de Aquino, Pascal, Hegel, Reich, Nietzsche, Sócrates, Ingres, Kautsky, Bataille e Moltmann, sem falar das visões extravagantes de ocultistas, teosofistas e espíritas como Kardec, Blavatsky e Eliphas Levi.
Justamente em face desta heterogeneidade, seria-nos impossível analisar a coletânea na especificidade de cada um de seus capítulos. Não obstante isto, não resistimos a tecer alguns comentários críticos sobre a epígrafe escolhida para abrir volume; de alguma forma, o curto texto de Friedrich Nietzsche deve indicar algo que poderia ser visto como uma porta de entrada ou como um comentário em modo literário dos conteúdos diferenciados expostos na obra.
"O quer é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que após longo uso parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas."
Tal epígrafe do filósofo alemão nos parece incoerente pela afirmação de um "relativismo absoluto" que, paradoxalmente, afirma que toda a verdade é transitória, limitada, relativa, "ilusão", exceto ela mesma, a "nova" verdade, a qual sem qualquer fundamento lógico como que escapa da única "verdade", a ilusória", declarada possível.
O postulado central do relativismo - ensina-nos mais uma vez outro alemão, o já citado Frithjof Schuon, em "Logic et Transcendance" (Paris, 1989) - é que não se pode fugir da subjetividade humana; ora, se este é o caso, então a declaração de Nietzsche cai abatida por seu próprio veredito:
"O relativismo reduz todo elemento de absolutez à relatividade, fazendo ao mesmo tempo uma exceção perfeitamente ilógica em favor desta própria redução. De fato, o relativismo consiste em declarar que verdadeiro é que não existe algo como a verdade, ou em declarar que é absolutamente verdadeiro que nada, a não ser o relativamente verdadeiro, existe. Poder-se-ia do mesmo modo dizer que a linguagem não existe, ou escrever que não há algo como a escrita."
Do mesmo modo, Aristóteles:
"Aqueles que afirmam que tudo, inclusive a verdade, está sujeito à mudança e ao devir se contradizem, posto que se assim fosse nem mesmo teriam como fazer esta afirmação, pois sobre que base podem formular uma declaração válida?"
Principal flagelo do cenário intelectual contemporâneo, o relativismo esquece que se, de fato, há "verdades" que passam, que são limitadas a determinado contexto histórico e cultural, há outras que, mais fundamentais e enraizadas no real, não variam e não mudam em sua essência, como as verdades matemáticas, por exemplo, e os princípios metafísicos.
Adicionando-se cinco a cinco, teremos a soma dez, seja no Brasil, na China, na Idade Média ou no século XXI. Quanto à metafísica, diz a sabedoria milenar da Índia que as fontes da felicidade estão no Infinito, posto que no finito a felicidade é relativa e passageira, seja a fama, o poder, a riqueza, a beleza física.
Em sua essência mais profunda, as verdades perenes e universais transcendem os acidentes da história e da geografia, permanecendo sempre atuais justamente porque fundadas no que é. "Cognoscetis Veritatem et Veritas liberabit vos" (João VIII, 32).
Mateus Soares de Azevedo é mestre em História das Religiões pela USP e autor de Mística Islâmica (Vozes, 2001) e de Religião e Esoterismo (no prelo).
Formas de aquisição do livro:
1-Diretamente na Livraria do IFCH, na Unicamp, por R$12,00
2 -Via postal, pelo valor de R$15,00, através de depósito no banco BANESPA, Agência 207, conta corrente 13.046-289 a crédito de FUNCAMP 519-63. Envie cópia do depósito, nome e endereço do destinatário ao Fax:(19) 3788-1589 ou 3289-3327 a/c Setor de Publicações/Magali Mendes.