O Sexo dos Deuses - Uma Versão sem Censura da Mitologia Grega
Antonio Carlos Olivieri e Cristina Von
Nova Alexandria
144 páginas
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Muitos séculos antes de a Igreja sublimar os órgãos genitais de seus principais personagens e de o cristianismo se tornar uma filosofia útil aos interesses de uma Roma despedaçada, era consenso que homens e deuses tinham mais semelhanças do que diferenças.
Essa proximidade caracterizava os vários episódios da mitologia grega, em que deuses e semideuses eram capazes de potencializar nas esferas divinas os complexos anseios dos homens comuns, condenados à mortalidade e à imperfeição. Dentre esses anseios, a sexualidade, enquanto uma das mais legítimas preocupações do humano, teve seu espaço garantido e destacado.
A partir dessa percepção, Antonio Carlos Olivieri e Cristina Von mergulharam na vida sexual dos deuses e semideuses gregos, esforço que resultou no livro "O Sexo dos Deuses: uma versão sem censura da mitologia grega", elaborado em parceria.
Optando por uma abordagem informal, mas não menos informativa, os autores utilizam o viés humorístico para retratar como num bate-papo episódios clássicos e outros menos conhecidos da mitologia grega. Para tal, utilizam referências atuais e cotidianas sob a forma de comentários que, inseridos nas tramas míticas e trabalhados na linguagem coloquial, as transformam em "causos", "fofocas de alcova", divertidas de ler e contar.
Dividido em três partes, o livro aborda primeiramente as fantasias sexuais de Zeus. Em seguida, a vida amorosa de Afrodite e, por fim, as histórias amorosas de deuses e heróis, num conjunto capaz de deixar o mais xiita dos psicólogos constrangido.
Comecemos com Zeus, esse deus que congrega em si tamanho poder, que utilizará sem cessar na obtenção de seus apetites eróticos. Apresentado na sua potência de vigor físico e reprodutivo, suas histórias nos falam das artimanhas de um ser dotado de poder absoluto, utilizado sem limites para seduzir e até mesmo subjugar um parceiro.
Assim, o acompanhamos nas suas diversas metamorfoses, seja animal, humana e até mesmo incorpórea; na vivência da sua hetero e homossexualidade; nos jogos eróticos; no exercício da violência sexual contra jovens que negam seus favores; na arte do disfarce e da dissimulação diante de Hera, sua esposa ciumenta. Ao mesmo tempo em que recordamos histórias clássicas, como a do nascimento de Ártemis e Apolo, a fuga desesperada de Io, a perda da virgindade de Alcmene e a fantástica história de Dione.
Todavia, é com Afrodite que o tema alcança seu território fecundo. A deusa do amor e dos jogos sensuais reúne histórias que exaltam tanto a beleza quanto a loucura, abordando a desmedida do poder e da razão que a sensualidade e o erotismo despertam. A beleza do corpo e das formas é exaltada, um reino de belas mulheres que competem entre si e de humanos e semideuses à disposição para sua cobiça, dá margem a grandes excessos de vingança e inveja, ao mesmo tempo em que expressa um maravilhoso espaço de encantamento e aproximação entre os seres.
Também entre os deuses Afrodite detém sua força: o casamento com o horroroso ferreiro Hefestos e o encontro com Ares, deus da Guerr,a nos indicam que as artimanhas de Afrodite são capazes de envolver qualquer ser, como não poderia deixar de ser, já que seu tradicional filho Eros aparece desde cedo, na Teogonia de Hesíodo, como a energia que une o Céu e a Terra, dando forma ao caos latente.
Segue os dois principais deuses uma série de histórias envolvendo os heróis gregos, como Hércules, Teseu, e também alguns deuses como Baco, que em geral são apresentados com suas taras e seus excessos num universo potencializado dada a origem divina ou semidivina de seus participantes.
Em seu conjunto fornecem ao leitor um panorama de incesto, estupro, ménage à trois, priapismo, orgias, obsessão, amor homossexual, entre outros. Enfim, relatos que nos alcançam hoje e mostram o poder do sexo na elaboração mítica de uma civilização e da sua capacidade de abordá-lo em grande parte de sua extensão.
É importante frisar que o livro não é um livro erótico; a opção pela linguagem e a abordagem informativa ao tratar certos temas destoam do texto erótico convencional. No entanto, é um livro que fala de erotismo com muito humor, por meio de uma forma escrachada.
Essa comicidade se alterna com algumas informações e curiosidades interessantes para o leitor, que, além de se divertir, é levado a conhecer um pouco mais sobre o "sexo dos deuses", esse tema atemporal, que tem na mitologia grega a expressão de suas potencialidades, mas que posteriormente encontrará a sua negação na apatia de anjos pálidos demais e santos servis. Então, um brinde a Baco e bom divertimento!